“Você esqueceu o rosto do seu pai!” Se durante suas viagens pelo Mundo-Médio alguém lhe disser isso com olhar acusador, você deverá baixar a cabeça, por a mão no coração e pedir perdão. Sabendo ou não, você transgrediu uma das muitas leis não escritas do Mundo-Médio que preceituam o bom comportamento… De algum modo você incorreu em desgraça, e concomitantemente desgraçou também seu pai, seu avô e todos os pais antes deles até a época de Arthur Eld. As crianças de nosso mundo são ensinadas a honrar pai e mae, mas em Gilead o principal é honrar o pai. A situação que deixa isso mais evidente é quando dizem a criminosos e traidores, no caminho para a árvore da forca, que eles condenaram a si, aos pais e aos pais dos pais a arder nos abismos de Na´ar. O destino das mães nunca é mencionado.

O profundo respeito à lei do pai – além da crença de que o próprio ka seja vinculado a linhagem paterna – se reflete até mesmo na língua superior, a antiga e cerimoniosa linguagem do Mundo-Médio. Na “Língua”, como a língua superior é conhecida pelos pistoleiros que a falam, dinh significa pai, líder, barão e rei, e denota uma rede de responsabilidades e fidelidades para com o clã e com os deuses. É um termo de respeito profundo, e todos que portam tal titulo devem corresponder a altas expectativas. E espera-se que cada dinh, da mesma maneira que Artur Eld, o antigo dinh do Mundo-Total, sirva ao Branco, a força primordial do bem representada por Gan, o espirito que dá vida à Torre Negra.

“Você esqueceu o rosto do seu pai!”
– Reprimenda tradicional do Mundo-Médio.

“CAN´AH, CAN-TAH, ANNAH, ORIZA” (“Toda a respiração vem da mulher)
– Antigo provérbio do Mundo-Médio na língua superior dos Eld.

No Mundo-Médio, homens e mulheres honrados servem a seus dinhs até o fim da vida. Quando em dúvida sobre uma decisão extremamente importante, pedem a seu líder um aconselhamento dan-dinh, a ser seguido prontamente e sem questionamento. Quando precisam granjear favores dos deuses, voltam-se para seus dash-dinhs (lideres religiosos), que explicam como vencer melhor os grandes espíritos. Dessa forma, em cada aspecto da vida do povo do Mundo-Médio se lembra do rosto dos pais e, com isso, homenageia o maior dos patriarcas, Artur Eld, e o pai da criação, o grande deus Gan.

Mas e quanto ao rosto da mãe? Que papel as mulheres representam no Mundo-Médio, e como elas são valorizadas? Um filho de pistoleiro tem por destino ser treinado no Caminho do Branco, como antes dele seus pais foram, mas a filha do pistoleiro não tem tal oportunidade. Assim como os governantes de nações e baronatos, os defensores dos respectivos povos são sempre homens. Regra santigas impedem as mulheres de aprenderem a masculina arte da guerra, e portanto vedam a elas o treinamento de pistoleiro. Costura, música, culinária, partejo, maternidade e fitoterapia são vistos como nobres ocupações femininas, mas o caminho das armas, nunca.

No Mundo-Médio, o ka ou destino de uma mulher não pertence. É decidido pelo pai e pelo clã. Embora em alguns baronatos mulheres sejam elegíveis como conselheiras, e em uma ou outra região distante e isolada clãs ainda sejam regidos por velhas matriarcas, na maior parte do Mundo-Médio a mulher exerce poder e influencia mínimos. Ela deve, da mesma maneira que o homem, seguir ditames de reis e lideres religiosos, mas também se espera que obedeça sem questionar ao pai, ao marido e a parentes mais velhos. Ao passo que até o mais pobre dos homens é em ultima instancia o dinh de seu lar, a mulher raramente tem o mesmo controle sobre a própria vida. Se um jovem cavaleiro conclui que a jovem que a família lhe escolheu para a noiva não é adequada, ele goza de um direito final de recusa, mas a noiva, não. Se ela quiser recusar um pretendente, poderá apelar à família, mas a família terá o direito de desconsiderar a objeção e forçar o casamento. Caso o pai ou os mais velhos julguem que é de seu interesse fazer da jovem a amante de um homem rico ou poderoso, podem até negar a ela a honra do casamento.

O preço que uma jovem paga por desobedecer aos mais velhos não raro é tao alto quanto o que um moço para por desobedecer aos governantes do seu baronato. Susan Delgado, que escolheu amar Roland a manter a promessa de se ramante do prefeito, foi inculpada pela própria tia como traidora e morta nas chamas da Árvore de Charyou. Apesar de inocente de qualquer delito propriamente dito, foi falsamente acusada de se acumpliciar de inimigos da Confederação e assim condenada à morte.

Quando uniu seu ka ao de Roland e preferiu o caminho da esposa do guerreiro ao papel de desonrada amante de homem desonrado, Susan tentava se lembrar do rosto do finado pai. Mas algumas mulheres rebeldes esquecem propositalmente o rosto do pai, e o desejo de exercer algum controle sobre os rumos da própria vida acarreta consequências desastrosas e de extensa repercussão, algumas, como a mae de Roland (Gabrielle Deschain), deitam-se secretamente com inimigos de Gilead e acabam entregando segredos de sua cidade-estado ao nefando Rei Rubro.

Mas nem tudo está perdido, apesar de tamanha traição. Mesmo na patriarcal Gilead, o mundo segue adiante e a cultura se transforma, em meio aos muitos magos e acadêmicos do Mundo-Médio, há os que sustentam que, muitos milênios antes da ascensão de Artur Eld, muitos séculos antes do império do Povo Antigo ser hegemônico, o Mundo-Médio era um lugar bem diferente, onde se honrava a mãe tanto quanto o pai. Como prova, apontam os antigos círculos druites de monólitos do Mundo-Médio, outrora erguidos para estabelecer contato com os deuses. Cada circulo era vinculado a um espirito feminino, poderoso o bastante para conceder o dom da profecia a seus escolhidos. De acordo com os hieroglifos de então, tanto homens como mulheres podiam ser serviçais dos círculos. Muitos desses textos sugerem que a palavra dinh tenha sido traduzida erroneamente como “pai” e que o sentido original seria “respeitável pessoa de idade”.

Além dos indícios em antigos monólitos e hieroglifos, essa corrente de pensamento aponta a quantidade de divindades femininas idolatradas nas muitas religiões dos baronatos do Mundo-Médio, por exemplo, Bessa (a deusa do acaso), Morphia (Filho do Sono) e a Velha Mãe (Estrela do sul). Todavia, quando se levanta a questão do direito da mulher de se treinar na arte da guerra, é uma só deusa que os estudiosos apontam: Lady Oriza, uma guerreira.

Segundo a cosmogonia tradicional, foi Gan, o espirito vitalizador da Torre Negra, que criou os múltiplos mundos. Mas rezam muitas versões da lenda que foi Oriza quem criou os seres humanos, e que ela deu a luz ao primeiro homem, de cuja costela se fez a primeira mulher. Dessa historia surgiu o proverbio: CANA’AH, CAN-TAH, ANNAH, ORIZA” (“Toda a respiração vem da mulher”), que costuma se citado por moças como Aileen Ritter (sobrinha de Cortlando Andrus, o venerado mentor de todos os pistoleiros de Gilead), que querem treinar ao lado dos irmãos no Caminho do Branco.

Em lides tradicionalmente femininas, nenhuma deusa supera Oriza. Ela é a padroeira o arroz e do milho, e protetora das crianças pequenas. A seita feminina conhecida como Irmãs de Oriza é formada por eximias curandeiras, parteiras e cozinheiras; entretanto, elas também se dedicam a uma atividade mais reservada. Como as mulheres do Mundo-Médio são proibidas de portar armas de fogo, as irmãs de Oriza aprimoram sua habilidade ofensiva usando outro tipo de arma, aproveitado do repertorio feminino e tão rápido e letal quanto um revolver de seis balas. Trata-se de um hibrido de disco de arremesso e prato de servir comida, mas com a borda afiada como navalha. A arma é de metal e assobia durante o voo. Foi criada pela deusa-patrona Oriza, a qual se lembrava muito bem do rosto de seu pai.

Até hoje as irmãs de Oriza se exercitam no arremesso de seus pratos afiados, chamados orizas por causa da deusa que os inventou. E, embora homens de muitos baronatos tenham desafiado essas mulheres para competições, nem mesmo os pistoleiros mais treinados conseguem superá-las em pontaria e poder mortal. De fato, há quem defenda que as irmãs devem ser tão valorizadas quanto os pistoleiros, até porque brandem armas de uma linhagem tão antiga quanto a de qualquer revolver.

O culto a Oriza está em ascensão no Mundo-Médio. Caminhe por qualquer mercado e verá jovens mulheres que levam no pescoço amuletos da colheita que têm a forma de lady Oriza levantando desafiadoramente um punho e segurando na outra mao um disco de prata. Até mesmo no amago da corte de Gilead há aqueles que sustentam que o rosto da mae também deve ser lembrado. Tais dissidentes acreditam que as antigas leis do Mundo-Médio devem ser mudadas para que as mulheres possam ser treinadas no Caminho de Branco e também servir como dinhs. Surpreendentemente, alguns membros do Conselho de Sábios começam a dar ouvidos à tese. Se for para a cultura do Mundo-Médio sobreviver aos ataques do Rei Rubro e das forças das trevas, os rostos do pai e da mãe deverão ser igualmente lembrados. E as filhas, tanto quanto os filhos, merecem a chance de mostrar seu valor.

Escrito por:
Robin Furth
Ilustrado por:
Richard Isanove
Publicado originalmente em:

“The Dark Tower: Treachery #02”

Edilton Nunes

Edilton Nunes

Graduado em Letras pela UEG (Universidade Estadual de Goiás), viciado em literatura de terror/suspense, amante incondicional de séries e Hq´s e fã de carteirinha do mestre Steve há pelo menos 20 anos.

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2 Responses to “”

  1. Cristiano Lopes Seglia disse:

    Eu acho que traduzi esse texto, não tenho certeza!

    Tenho outros traduzidos, alguns foram publicados no projeto19, tras eles pra ca! rs

  2. Edilton Nunes Edilton disse:

    Os textos que não possuem nota de tradutor foram traduzidos por mim ou retirados das HQS Cris (ainda não inclui o nome do tradutor pois não consegui encontrar minha hq, mas assim que encontrar o farei). Os seus estão devidamente creditados.

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