Crônicas de Myke – 1ª Parte: Um sono profundo [Fic]

Fui construído em um Dogan que fica no Posto Avançado do Corredor Nordeste, Quadrante-Arco 16, próximo do rio Whye, numa época em que meus criadores começaram a trilhar as sendas que lhes trouxeram tanto fascínio, mas que no futuro, agora sei de forma empírica, os jogariam na extinção devido aos avanços feitos de maneira inconsequente. Estive entre os primeiros andróides que foram construídos. Nestes tempos meus criadores tinham uma grande esperança quanto ao que seria possível com a geração de um novo tipo de ser, capaz de executar com uma facilidade extrema tarefas que para humanos eram muito trabalhosas ou perigosas… Estes foram tempos de muita esperança, tamanha que ela parecia algo que estava sempre presente no ar que respiravam. Contudo o conhecimento lhes causou a vontade descontrolada de sempre avançar, por maior que fosse a resistência colocada em seus objetivos, eles começaram a não somente explorar as propriedades biológicas, químicas e físicas das coisas, mas também passaram a manipular igualmente a propriedade mágica e o tecido da própria realidade, fato este cujas consequências não foram devidamente pesadas e que causou danos extremamente amplos à terra, trazendo esterilidade para alguns solos e alterando a constituição biológica e química de plantas e animais (incluindo os seres humanos, com o nascimento de crianças com mutações ou até mesmo mortas). Segundo consta em meus registros, um mago chamado Maerlyn foi o responsável pelo inicio da jornada mistica de meus criadores. Foi ele que lhes ensinou como construir os Dogans e ter acesso às ferramentas necessárias para manipular as propriedades da magia mesclada à tecnologia. Sempre sentia uma profunda tristeza quando percebia que meus criadores caminhavam para a ruína com um grande sorriso em suas faces, achando que com suas armas poderiam trazer a tão sonhada felicidade para eles e seus descendentes. Eu fui um espectador marginal disto tudo, pois sempre estava seguindo ordens apesar de muitas vezes discordar de algumas delas, meu sistema lógico não permitia que minhas discordâncias passassem do pensamento puro para qualquer mínima ação que fosse.

Vi um a um eles morrerem e foram meus semelhantes e eu que enterramos seus corpos, muitos de meus irmãos andróides mergulharam no mais próximo de um estado de melancolia que um cérebro positrônico pode reproduzir. Acredito que como nossos comandantes estavam morrendo a nossa razão lógica de ser também estava se esvanecendo. Muitos de meus iguais decidiram, após o último de nossos senhores cair, apagar todas as ligações eletrônicas que chamamos de “nosso cérebro”, ato que para nós é claramente a morte. Dentre os que conseguiram continuar sem serem subjugados pelo tempo impiedoso que prosseguia, tornando todo o contexto em que estávamos ainda mais negativo, estava um androide do tipo mensageiro chamado Andy. Ele era um dos que mais conversava comigo. Falávamos sobre a possibilidade de haverem outros Dogans ainda ativos, assim como o nosso, contudo a cada dia de tentativas vãs de contato deixávamos de considerar essa possibilidade. Consideramos a alternativa de deixar o Dogan à procura de sobreviventes do cataclismo, todavia nossa programação dizia que só devíamos abandonar o lugar sob ordens de nossos superiores. Deduzo que as longas horas de conversa com Andy me ajudaram a preservar meu sistema lógico em atividade, para não cair no processo de degeneração que atingiu tantos irmãos. Andy e eu tivemos de abater muitos semelhantes que ficaram descontrolados e ameaçaram a integridade do Dogan e de nossos demais irmãos.

Muitos anos se passaram desde que o cataclismo teve seu auge, os dias agora eram todos iguais, perdemos a noção de em que ano estávamos. Executar as tarefas de manutenção de nosso lar era uma das poucas atividades que fazíamos. Foi em um dia de nuvens tão escuras, que chegavam a eclipsar o sol, que resolvi conversar com Andy sobre uma medida que deveríamos tomar para preservar qualquer chance que pudéssemos ter de que um membro de outro Dogan chegasse até o nosso e ainda estivéssemos habilitados a tentar recompor a sociedade humana. Pelas informações que obtive em meus estudos a degeneração de nossos cérebros positrônicos estava se agravando devido ao longo tempo sem a manutenção de nossos criadores e aqueles que estavam há muito tempo na ativa sucumbiam mais rapidamente à perda de controle. Considerando essas informações deveríamos nos desligar, após obviamente lacrar o Dogan, e aguardar em hibernação que num futuro fossemos mais uma vez chamados, mas para reparar os danos que não conseguimos impedir e não terminar de vez a destruição do mundo. Nossos criadores tentaram substituir as criações de Gan pela tecnologia e nesse intuito falharam de modo catastrófico.

Depois que falei com meus irmãos, lacramos as portas do Dogan, ativamos o sistema de segurança, colocamos uma mensagem, que ficaria se repetindo com o objetivo de avisar qualquer pessoa que pudesse captar o sinal, de que o lugar ainda estava operante e com um pequeno grupo de androides em hibernação esperando por comandos. Após nos certificar de que tudo estava preparado para o nosso descanso, fomos para o porão e lá desligamos nossos cérebros e mergulhamos numa escuridão absoluta, isenta de sonhos.

Continua…

Edilton Nunes

Edilton Nunes

Graduado em Letras pela UEG (Universidade Estadual de Goiás), viciado em literatura de terror/suspense, amante incondicional de séries e Hq´s e fã de carteirinha do mestre Steve há pelo menos 20 anos.

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4 Responses to “Crônicas de Myke – 1ª Parte: Um sono profundo [Fic]”

  1. O projeto dessa Fan Fic será interessante, assim espero…aguardem as próximas partes.

  2. Priscilla Rúbia disse:

    Está interessante sim. Curiosa e aguardando a continuação…

  3. Claudinei Machado disse:

    Realmente esse conto está cada vez mais cativante. No aguardo…

  4. Mélani (Allgood) Sant'Ana disse:

    Muito bom!! É sempre demais ver fan fics sobre A Torre!

    Continue no caminho do feixe, sai!

    Longos dias e belas noites!

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