Fan Art: “O Caminho do Eld”

Quinta é dia de Fan Art´s aqui no StephenKing.com.br. Dessa vêz trouxemos uma fan-fic muito bacana, que se passa no universo da Torre Negra e foi escrita por nossa leitora Mélani Sant’Ana. A fic ainda está inacabada, mas a medida em que a Mel for postando nós vamos atualizando este tópico. Se você quiser participar dessa seção basta enviar um email para: edilton@stephenking.com.br com a sua fan art (desenhos, pinturas, textos, músicas e etc…)

Sobre a autora: Mélani Sant’Ana é Arquiteta, guitarrista e escritora. Além de viciada em Sci Fi e fantasia é leitora voraz da série “A Torre Negra”.

O Caminho do Eld

I

Era uma noite como outra qualquer; não chovia, não ventava e não havia pessoas pelas ruas (a não ser na Cidade Baixa, onde a vida acontecia àquele horário).

O som de ferraduras que batiam no chão ecoava pelo ar noturno e não levantava qualquer suspeita a nenhuma das mentes adormecidas após o longo dia de trabalho digno.

A única pessoa que teria a obrigação de acordar quando o som de botas batendo no chão soou alto e seco e contornou a sua casa, não acordou. Estranho, levando em consideração de quem se tratava.

Gilead, centro do baronato de Nova Canaã, era uma cidade embasada nos preceitos da dignidade e nos bons costumes, portanto o volume estranho embrulhado em um exuberante manto de veludo verde à porta de uma casa simples de madeira permaneceu lá até seu dono abrí-la pela manhã e encontrá-lo.

A ironia disso não era o quê continha a cesta embrulhada e sim a quem ela fora entregue. Quando Cort, um homem de meia-idade, muito forte e corpulento, encarregado do treinamento dos jovens pistoleiros abriu a porta, ficou parado a observar por alguns instantes antes de apanhar o embrulho de forma quadrada com o pano amontoado em cima e levá-lo para dentro. Havia um envelope, também. Não precisou abri-lo para saber o que havia dentro, sentiu pelo peso o que era e uma irritação começou a crescer lá no fundo de sua mente.

Depois de colocar a cesta sobre a mesa, retirou o pano e olhou; era uma criança como imaginara, e não tinha ao menos um ano completo. A irritação ganhou mais força ao abrir o envelope e ver que estava escrito:

“Merry Allice Smithson”

Não havia mais nada marcado, nem na frente nem no verso, então guardou o envelope para usar o papel depois.

– Diabos! – Praguejou, dobrando o papel. – Com mil diabos! Uma menina, ainda por cima!

Não havia o que fazer com uma criança, muito menos com uma menina. Ele não era do tipo que tinha muito a ver com menininhas.

– Vejamos… – Pensou, sentando-se em uma das cadeiras, coçando inconscientemente os pelos que despontavam no queixo. – Smithson.

Mas não conseguiu recordar de nenhuma família com o sobrenome Smithson, nenhuma mulher de rancheiro grávida e, ora, Smithson era um belo nome, um nome que não pertenceria a um rancheiro. Era nome de pistoleiro. Mas ali, em Gilead, não havia nenhum pistoleiro Smithson. Talvez houvesse algum há muitos anos, mas não tinha certeza. A única certeza que tinha é que devia se livrar daquela responsabilidade.

II

Naquela manhã daria um treinamento de tiro aos gusanos, rebentos dos pistoleiros, garotos dos quais teria de tirar o sangue para, quem sabe algum dia, virarem homens. Mas não podia simplesmente largar a criança em casa afinal, não fazia o tipo que cuidava de bebês, mas não a abandonaria sozinha. Decidiu-se por levá-la ao castelo, onde alguma das criadas com certeza adoraria criá-la.

Pouco antes de iniciar suas tarefas, dirigiu-se ao castelo e entrou pela área de serviços, onde estariam os criados. Acabou por encontrar Hax, o cozinheiro alto que teria seu fim pendurado numa corda alguns anos mais tarde.

– Onde foram as mulheres? – Indagou ao entrar.

– Você sabe muito bem que a esta hora elas estão arrumando os aposentos das senhoras, Cort. – Respondeu o cozinheiro, sem tirar os olhos da massa que preparava. Era verdade.

– E Madeline? – Insistiu.

– Faz o mesmo.

– Olhe. – Chamou Cort, sério, com a paciência escassa que tinha. – Deixaram isto à minha porta durante a noite. – Mostrou a cesta com a criança dentro, que destoava completamente de quem a levava. – Preciso que alguém fique com ela.

Hax olhou bem para a menina.

– Madeline não a criará. – Respondeu, por fim. – Ela cuida das crias das damas aqui do castelo, já trouxe duas netas para serem amas e sua filha acaba de dar à luz, há uma semana.

– Com os diabos! – Repetiu Cort. – Preciso deixá-la com alguém, pelo menos. Você poderia?

Pela primeira vez, Hax olhou-o nos olhos.

-Pode deixá-la aqui , sim. – Pensou. – Mas, se ao final do dia ninguém a quiser, peço à você que venha buscá-la, sai.

– De acordo. Muito obrigado, sai.

Durante todo o dia, apesar de suas incumbências, o nome Smithson martelou sua mente como um ferreiro em uma forja. Não tinha pretensão alguma de ficar com a criança, mas se pudesse encontrar a família correta, a devolveria.

Mas algo ainda soava estranho; devolvê-la a alguém que a abandonou? E o nome… Aquele nome…

Ao final da tarde, quando o sol tingia as copas dos pomares de maçãs de dourado, retornou ao castelo e encontrou o que temia, mas já esperava.

– Madeline a alimentou, trocou suas fraldas, mas não pode levá-la, Cort. – Explicou Hax, sem de fato se importar. – Eu sinto muito.

“Por que não a leva à Debaria?” Sugeriu. “Lá ela terá o ensinamento devido. É uma pequena bastarda, sem muito rumo na vida, não é?”

Cort pensou; realmente havia lógica naquilo que o cozinheiro dissera. Faria isso. Levaria a menina à Debaria, onde seria criada pela doutrina religiosa, a salvo do risco de tornar-se uma rameira qualquer.

– É uma boa idéia. – Admitiu. – Muito obrigado, sai, pelo auxílio. Que seus dias sejam longos sobre a terra.

– E que tenha tudo em dobro.

Encerrando as formalidades, retornou à sua casa, levando a cesta, uma cesta com um recheio muito mais desperto do que chegara. Um recheio que o impediu de dormiu por grande parte da noite.

Ao que lhe pareceu, a manhã chegou com velocidade espantosa. Sentiu vontade de enfiar um tiro no forte feixe de sol que banhou seu rosto coberto de cicatrizes e o acordou; quando se situou e percebeu que balas não o ajudariam em nada naquele momento, levantou-se e foi se lavar. Após um rápido desjejum, estava pronto para levar a tal pequena Merry Smithson à Debaria, mas não iria sem antes eliminar uma dúvida, uma intuição que o perturbaria por um tempo considerável se resolvesse viajar antes.

O dia hoje era de Vannay, estava completamente livre para perder algumas horas na biblioteca dando uma boa examinada nos anais do baronato. Passou um dia instrutivo lendo os relatos dos dias de glória passados. Estava quase se certificando de que não havia nada ali quando encontrou um volume grosso, quase se desfazendo, toscamente ilustrado e manuscrito, enfiado em um canto das grandes estantes de madeira escura. Eram crônicas escritas na época em que Arthur Eld caminhou pelo mundo. Neste livro havia um homem, um homem chamado Richard Smithson, O Virtuoso. Nos relatos era descrito como um dos bravos homens que cavalgara ao lado do próprio Eld. Mas a dúvida era: Por que um homem de tal valor fora esquecido pela História? A resposta aguardava por ser lida mais abaixo; Richard Smithson perdeu sua amada esposa no parto do primeiro filho, que era uma menina. A razão de sua vida acabou. Nunca mais deitou-se com outra mulher e, portanto, morreu sem herdeiros. O que seguiu-se a isto são boatos. A menina filha de Smithson casou-se com um homem sem importância e teve um casal de filhos. O rapaz tornou-se menestrel e teve uma criança bastarda com uma prostituta. Sobre o que aconteceu depois, nem boatos existiam. Mas era possível que, mesmo gerações após o nome Smithson ter sido desgraçado e esquecido, seu sangue circulasse por Gilead. Mas e o nome? De onde viera e como o nome permanecera? Seria possível? Varreu os pensamentos de uma vez, aquilo já havia ido longe demais. No dia seguinte levaria a menina à Debaria, enfim, perdera a noção do tempo em meio aos livros e ficara tarde para tomar a estrada. Pegou a cesta com Madeline na cozinha e retornou à sua casa.

– Muito bem, gusana. – Disse ele, sem expressão na voz. – Sangue de Richard Smithson ou não, seus dias em Gilead acabaram.

O simples fato de tê-la chamado como a chamou, gusana, selou seu destino para sempre.

III

Aquela manhã demorou muito a chegar. Assim como a noite anterior, não dormira quase nada, mas desta vez não houvera interferência da menina. Eram seus pensamentos. Não havia a menor possibilidade de que ela fosse descendente da Richard Smithson pois, se o nome houvesse persistido por tanto tempo passando de geração em geração, não teria sido esquecido pela história. Mas havia uma teoria realmente ridícula que não saía da mente astuta de Cort, só não era mais ridícula do que o fato de que mesmo sendo um absurdo não conseguia livrar sua cabeça dela. Seria possível que o nome houvesse sido mantido por uma tradição oral e passado em histórias até que uma mãe desesperada e sem condições de criar sua filha resolveu lhe devolver o nome que era seu por direito de sangue? Então a levou para que tivesse uma vida mais digna, em Gilead? Ridículo. Mas, por que diabos fora a sua porta escolhida para deixar a cesta? A mãe que deserdou sabia do ofício de Cort e estaria sugerindo que ela devia ser criada como pistoleira? Isso era plausível. Ridículo, porém plausível. Mas havia ainda outra possibilidade, uma possibilidade que não o deixava de forma alguma mais confortável e estava baseada na presença – cada vez mais forte – de uma palavra de duas letras que dizia tudo sobre todas as coisas. Ka.

Seria ka agindo e trazendo de volta um valioso punhado de sangue dos tempos de Arthur Eld? Tinha realmente muito apreço por enigmas, adivinhações; mas por aquelas que se propunha a resolver nos Dias de Feira e não por aquelas que batiam à sua porta durante a noite.

Logo após iniciar seu dia, estava com o cavalo selado, pronto para resolver o problema, rumo à Debaria. Durante todo o caminho que percorreu era como se um ímã gigante o puxasse de volta. O ka lhe falava por intermédio de sua consciência e não podia ignorar a influência de alguma força esquisita se até mesmo seu próprio cavalo parecia relutar em seguir em frente. Estava mistificando. Não poderia criar uma criança qualquer como a primeira mulher pistoleiro há história por que lera alguns livros e tivera uma intuição. Que o toque fosse para os diabos aquela altura de sua vida. Porém, mais do que qualquer coisa, não poderia deixar uma criança com sangue de pistoleiro ser criada como religiosa. Seria um erro terrível, e que os deuses tivessem pena de sua alma. Não havia margem para este tipo de erro nos anos que a Confederação tinha pela frente; puxou bruscamente as rédeas e fez sua montaria virar em 180 graus, tomando de volta o caminho de Gilead, com o sol do meio da tarde a lhe queimar as faces. Então, pela primeira vez em sua vida, pronunciou as seguintes palavras sem antes derramar um pouco de sangue:

– Você venceu.

IV

O que se seguiu à chegada da pequena Merry Smithson a Gilead foi o suficiente para Cort começar a conceber a idéia de atirar na própria cabeça. Foi difícil admitir que estava seguindo uma intuição (muito forte, sim, mas ainda sim uma intuição). Só que, admitir para si mesmo é mais fácil do que admitir ou explicar para os outros o que estava acontecendo.

Definitivamente não nascera para trocar fraldas e limpar a bunda branca dos bebês, ou ensiná-los a falar e andar. Mesmo que (por mais ridículo que fosse) Merry acabasse iniciando o treinamento de pistoleiro, antes disso precisaria ser criada e educada por uma família. Coisa que ele não poderia ser. Teria de delegar. Mas, para quem?

Vannay? A menina iria acabar se tornando filósofa. Não. Ninguém do palácio estava disposto, também. Seria ideal que a criança fosse criada numa casa de pistoleiro, mas seria pedir demais. A solução, única e legítima, estava nas mãos de uma pessoa, e as coisas se ajeitariam como o Ka deseja de acordo com ela.

Entrou na sala grande onde geralmente poderia encontrar o Dihn de Gilead, e sua cadeira de espaldar alto estava vazia. Trazia a cesta com a menina dentro, e estava realmente duvidando sobre suas decisões dos últimos dias.

– Saudações, sai. – Uma voz muito feminina soou atrás dele, fazendo-o se virar. – Longos dias e belas noites.

– Lhe desejo tudo em dobro. – Respondeu, com uma breve reverência.

– O que o trás aqui? – A mulher alta, de cabelos negros e aparência frágil parecia interessada no conteúdo da desta.

– Preciso confabular com seu senhor, sai.

– Entendo… Ele já está se dirigindo para cá, aguarde um instante, por favor.

Cort assentiu e aguardou; não demorou para Steven Deschain adentrar o recinto e dirigir-se a ele.

– Longos dias e belas noites, Cort.

– Meu Dihn, que tenha tudo em dobro. – Respondeu, novamente, com uma breve reverência.

– O que o traz aqui? – Perguntou Seteven, alto e esbelto, com compridos bigodes de pistoleiro e muitas rugas a menos do que viria a ter.

– Estou com um grande problema, e acho que deveria saber, meu senhor. – Começou, odiando sua própria sorte.

Steven dirigiu-se até sua cadeira e sentou-se, encarando Cort com os olhos afiados.

– Prossiga.

– Há alguns dias deixaram isto em minha soleira. – Mostrou a cesta, retirando o veludo verde de cima.

– Oh, mas é tão linda! – Exclamou Gabrielle Deschain, apanhando delicadamente a menina. Não era estranho que houvesse sido escolhida para desposar o Dihn de Gilead, da linhagem direta do Eld; era uma perfeita dama, e muito bela. – Alguma suspeita sobre quem podem ser os pais?

– Seu sobrenome é Smithson. – Respondeu Cort, visivelmente desconfortável.

– Smithson… – Balbuciou Steven, para si próprio.

Um sopro de esperança varreu a mente obscura de Cort.

– Sim, Smithson. – Prosseguiu. – Tentei todos que poderiam ficar com ela, e ninguém a quis. Tencionei levá-la a Debaria, mas houve um problema.

– Podemos ficar com ela, Stevie? – Pediu Gabrielle, quase em tom de súplica, aninhando a garota. – Olhe só! Tão pequena, tão indefesa! Oh, por f…

– Cale-se, Gabrielle. – Ordenou o pistoleiro, com a educação que sua esposa merecia. Mesmo com o tom autoritário, ainda era muito educado. E ela se calou. – Retire-se, pode levar a menina. Preciso falar com Cort em particular.

Ela lançou um último olhar como que pedindo, implorando para ficar com a menina, e depois se retirou. Quando o som de seus passos leves desapareceu, Steven voltou sua atenção para o homem corpulento à sua frente, e fez um sinal girando as mãos como se dissesse: “Prossiga”.

– O nome. O nome me obrigou a ler os anais do Baronato, e eu encontrei Richard Smithson. – Explicou Cort, sem rodeios. – É possível que ela seja a última descendente desse homem, que foi um dos que cavalgou ao lado de Arthur Eld.

Steven Deschain recostou-se, erguendo o rosto e encarando Cort.

– A questão é a seguinte: Por que diabos foram deixar essa criança à minha porta? Sinceramente, não acredito em coincidência, neste caso. É muito para a cabeça de qualquer um admitir que esse nome retorne à Gilead, principalmente nos tempos que se acercam, e venha parar à porta da pessoa responsável pelo treinamento dos pistoleiros.

– Está dizendo, então, que… – Iniciou o Dihn, lentamente, mas Cort o interrompeu.

– Pelos diabos que em toda a minha vida o Toque nunca me disse nada, mas não há outro nome para isso, a não ser…

– Ka. – Desta vez, foi Steven Deschain quem interrompeu.

– Ka. – Confirmou.

Um daqueles silêncios que sempre surgem quando coisas realmente estranhas são ditas dominou o salão onde estavam os dois e prevaleceu por algum tempo. Era impossível supor o que se passava pela mente do pistoleiro de face impassível e olhos profundos. Por fim, ele falou.

– O que você quer dizer, então, é que devemos treinar essa menina como pistoleira, é isso?

– Não sei. – Realmente não sabia. – Eu sei que isto é impossível, Senhor. Que neste mundo, as mulheres desempenham funções condizentes com sua existência, mas acredito que, pelo menos, ela deva crescer em uma casa de pistoleiro.

Seteven Deschain, que era um homem extremamente perspicaz, ouviu a verdade através das palavras de Cort e, após mais momentos silêncio pensativo, assentiu.

– Não vejo mal, em abrigar a criança. – Disse, por fim. – Mas, quanto ao início de nossa confabulação, não creio que haja muito sentido, realmente. Falarei a um dos meus, e pedirei que leve a menina para sua casa.

– Muito obrigado, pistoleiro. – Agradeceu Cort. – Assim retiro um grande peso de minhas costas.

Realmente. Agora, aquilo era conversa para dali a alguns anos. Você diz a verdade, eu digo obrigada.

V

Tudo ficou calmo por anos. Na realidade, tudo ficou calmo para sempre; para Gilead e para o resto do mundo nada acontecera e, apesar de todo o misticismo por trás desta história, ela não tem relevância a não ser para os envolvidos, nem tem um final feliz como esperamos ao ler um romance.

Merry Smithson foi criada pela família de um dos homens de confiança de Steven Deschain, Christopher Johns e, embora fosse impossível precisar sua data de nascimento, emparelhava em idade com o garoto da família, Alain.

Recebeu de Kathleen Johns a educação de uma princesa; tinha os cabelos compridos sempre brilhantes e bem-cuidados, as unhas sempre limpas e usava vestidos sempre novos. Apresentava os melhores modos que uma criança poderia ter.

Cort, porém, nunca pensou que realmente estaria livre de Merry Allice Smithson. Por mais que sempre demonstrasse a personalidade que sua aparência indicava, dia após dia ansiou pela hora em que a garota começasse a andar e falar para que pudesse, enfim, começar aquilo que o Ka colocara em suas mãos.

– Não, eu não aceito que este homem leve Merry. – Disse Kate Johns, com a voz firme.

– Kate, não é para sempre. – Explicou Christopher, paciente, como era por natureza. – Cort irá levá-la somente algumas manhãs, por enquanto.

– Manhãs! Sim, manhãs! – Contestou, – mas depois ela acabará passando mais tempo lá com… Com os garotos, do que aqui, que é o seu lugar.

– Kate, você estava ciente das condições quando aceitamos criá-la, não estava? – Perguntou o pistoleiro, tomando as mãos da esposa entre as suas. – Independente do que Cort quer ensinar a ela, já sabíamos que seria assim.

Kathelin Johns começara a chorar.

– Não quero que minha menina vire uma atiradora! – Reclamou.

– E ela não virará. – tranqüilizou-a. – Pode acreditar Steven não permitirá.

Mas no fundo, ele, Christopher Johns, com todo o dom que possuía, sabia muito bem que Steven Deschain nada poderia fazer contra a vontade do Ka. Que era forte, por sinal.

Nunca foi escondido de Merry que ela era filha adotiva de Christopher e Kathleen johns. Ela sabia que, apesar da semelhança física com a mãe – os cabelos claros, ondulados, e o tipo físico “mulher roliça” – era uma pessoa sem laços sanguíneos, sem linhagem, sem nome. Mas ate aí, isso de nada teria importância, era o que dizia sua consciência até certa idade. Mas no futuro viu que não era bem assim.

Cort teve sua oportunidade quando Merry tinha aproximadamente cinco anos de idade. Precisava falar com ela, explicar-lhe algumas coisas, pois, em breve, entraria em treinamento.

“Em breve” era um pouco cedo demais, mas tinha planos especiais para ela. Era uma garota, o inicio e o final de seu treinamento deveriam ser diferentes do padrão. E não seria uma atitude declarada. O Dihn de Gilead já dissera que ela não treinaria como pistoleiro, apegado que era aos costumes e tradições, não permitiria que aquilo acontecesse.

Teoricamente nem Cort permitiria, mas aparentemente o Ka pegara o gosto por brincar com sua vida e seus planos.

VI

Era uma manhã ensolarada, o dia em que Chistopher Johns levou a filha adotiva à modesta residência de Cort pela primeira vez. Nem o pistoleiro nem sua esposa haviam contado á menina o que iria acontecer, por que de fato não sabiam. Que o garoto, Alain, iria começar o treinamento para pistoleiro um ano mais tarde era do conhecimento de todos, mas o caso de Merry era uma incógnita.

– Entre, gusana. – Disse Cort, após o pai da garota ter ido embora.

Merry estava parada à porta da casa, a mesma porta à qual fora deixada cinco anos antes, envergonhada. O vestido azul-claro rendado e a fita nos cabelos destoavam completamente do cenário. Ela começou a adentrar a passos lentos, até chegar perto da cadeira onde o homem grande e estranho estava sentado.

– Me chamou como, sai? – Perguntou a menina, contida.

– Te chamei da forma como chamarei por todos os dias, daqui para frente. – Respondeu. Merry obviamente não entendeu, nem se sentiu ofendida. Levaria algum tempo antes que compreendesse o que Cort dizia.

Olhou ao redor com seus olhos de criança, sentindo estranheza por tudo aquilo que via. Ela não fazia idéia de que futuramente sentiria mais estranheza em um quarto cor-de-rosa e dourado com uma cama de dossel do que em um estábulo, mas enfim, ainda era uma garotinha.

Fechou a porta lentamente, para postergar o momento em que encararia aquela criança nos olhos, e caminhou até uma cadeira ao lado de sua mesa, e sentou-se.

-Entre, gusana. – Mandou.

A garota parecia relutante, mas acabou andando em sua direção, e sentando-se na cadeira à sua frente. Os pés dela nem tocavam ao chão, de tão pequena que era ainda.
– Me chamou como, sai? – Ela perguntou.

Uma irritação subiu pelos nervos de Cort. Seria um prenúncio do que teria pela frente? Uma criança dona de si? Resolveu cortar.

– Te chamei da forma como chamarei por todos os dias, daqui para frente. – Respondeu. Ficou com um pouco de remorso depois. Estaria ficando velho? Mas, se tinha alguma intenção de que aquele bolo azul rendado que estava sentado à sua frente se tornasse um (pistoleiro? Pistoleira?) deveria tratá-lo como se fosse um garoto afinal, o treinamento era iniciado com somente um ano a mais do que ela tinha naquele dia.

Houve uns minutos de silêncio, nos quais Merry Smithson esquadrinhou cada centímetro do ambiente em que estavam e ele próprio pensou em como abordaria o assunto.

– Escute – começou. – Você sabe que não é filha dos seus pais, não é?

A garota assentiu.

– Sim.

– E sabe que seu irmão é? E que seu pai é um pistoleiro, e seu irmão também será quando crescer, não sabe?

– Sim, sai Cort. – respondeu a menina, parecendo impaciente. – Mas o que quer dizer com tudo isso?

– Você sabe o que faz um pistoleiro? – Indagou sem dar atenção à pergunta da menina. Pela primeira vez ela pareceu desconcertada.

– Não… Não sei, sai. – Ela baixou os olhos.

Bom! Agora já tinha um parâmetro do quanto ela sabia. Muito ela aprenderia com Vannay futuramente, mas o básico, aquilo que os garotos já sabiam quando chegavam, ela precisava aprender antes.

– Veja, houve um tempo em que um homem guiou o mundo para que se tornasse o que você vê hoje. – Explicou, da maneira mais resumida que conseguiu (e que sua capacidade inventiva lhe permitiu). – Esse homem chamava-se…

– Arthur Eld? – Interrompeu a garota.

– É… Isso mesmo, Arthur Eld. – Respondeu Cort, continuando e tentando esconder a irritação por ter sido interrompido. – Ele foi o primeiro a carregar revólveres pelo… Pelo mundo. Os descendentes do Eld e de seus cavaleiros continuam mantendo as tradições e honrando o seu juramento de proteger… Proteger – ele frisou bem as palavras seguintes – a ordem das coisas.

Merry Smithson olhava interessadamente enquanto seu interlocutor feio e careca discorria sobre o Eld e os pistoleiros.

– Tem um bom tempo já, qualquer criança, qualquer garoto que prometa algum talento pode iniciar o treinamento de pistoleiro e mudar sua posição na sociedade. Não é mais necessário que a criança seja filha de um pistoleiro, de um nobre. Existem famílias de cavalariços ou camponeses que tem seus filhos adotados por pistoleiros até que tenham idade suficiente para iniciar o treinamento.

– Eu posso ser pistoleira então, sai Cort?

Essa pergunta adensou o ar dentro da casa. Ainda não era possível explicar a ela; antes deveria tomar conhecimento do significado do Branco, das palavras Ka, Khef e Ka-tet… E isso significava crescer mais um pouco.

– Não, você não pode. – Não podia fazê-la criar expectativas. – Mas eu vou ensiná-la tudo o que puder sobre a história dos pistoleiros e, quando eu achar que está pronta, lhe explicarei o motivo.

VII

Segundo o que entendera, deveria estudar algumas coisas durante aquele ano. Na verdade, queria brincar. Brincar com seu irmão, que tinha a mesma idade, e com os amigos de seu irmão, com quem nunca trocara mais de alguma saudação educada.

No entanto, sai Cort advertira seu pai de que deveria aprender a ler antes de ter aulas com o outro mestre, Vannay, pelo que entendera. Deveria começar a ler antes que completasse seis anos, só não entendia por que. Sai Cort parecia meio desconcertado quando ela perguntava, mas ele realmente não sabia a resposta.

Isso a pequena Merry Smithson não sabia, mas se algum adulto perguntasse (e talvez Christopher Johns tenha perguntado) Cort responderia que ela deveria estar adiantada em algumas coisas quando se deparasse com os garotos. Mas, se ainda assim, quem perguntou não estivesse satisfeito por completo e perguntasse por que Cort queria que ela estivesse preparada, ele não saberia a resposta.

Pensou por anos sobre isso para responder a si mesmo e acabou deixando que a roda rodasse e que as coisas fossem distribuídas em seus devidos lugares a seus devidos tempos.

Além do quê, uma garota capaz de ler pode aprender histórias por si própria e não precisa que alguém (no caso ele) as conte. Kathleen Johns estava cuidando dessa parte, ensinando a filha adotiva a ler, e teve certo êxito na tarefa, mas não o suficiente para que ela saísse lendo aos seis anos.

Era uma manhã de sol na qual muitas crianças esperavam no grande jardim gramado, que era verde e bonito como tudo ainda era em um mundo que ainda não seguira adiante,por mais um dia de aula normal com o velho e sábio mestre. Nunca sabiam se seriam convidados a entrar ou se a aula seria no jardim, à sombra de alguma das árvores antigas.

Merry Smithson já tinha uns nove anos a esta altura, assim como seu irmão, Alain, e os novos amigos, Roland Deschain, filho do Dihn de Gilead e Cuthbert Allgood, um menino engraçado, que só começara a falar com ela quando descobriu que ela não iria para o campo de treinamento de Cort junto com eles.

Ambos, tanto Roland, estranho e quieto, quanto Cuthbert, incansavelmente bobo, eram aquele tipo de pessoa levemente especial, de quem você quer ser amigo ou no mínimo arrancar uma risada, e pareciam não ter consciência de que, após certa idade (especialmente no final da adolescência) uma menina como ela poderia fazer o que quisesse com qualquer um deles. As garotas tinham poderes que eles nunca teriam. Eram perigosas e dominadoras, como um John Farson com peitos.

A princípio todos os garotos lá estranharam a presença de Merry nas aulas de Vannay, mas logo se acostumaram. Ela mal falava, somente ouvia, muito atenta. As dificuldades começaram com aquela idade exata, nove anos; tinha amor incondicional de seu irmão, mas não tinha amizade muito profunda com os garotos com quem ele se relacionava, era algo pouco mais do que a simples cordialidade, pouco. Não tinha amigas garotas, pois estava sempre estudando.

Abel Vannay palestrava sobre muitas coisas, história entre elas, e era realmente empolgante. Quando os garotos iam para as aulas de tiro e falcoaria e ela não, ficava muito frustrada. Com os anos ela compreendeu a resposta de sai Cort, para a pergunta que fizera um dia: “Não,você não pode.” Foi o que ele respondeu. Obviamente por que ela era uma menina, e meninas não podem atirar, meninas não podem ser pistoleiras, apalavra pistoleira de fato nem existia.

Por que, diabos, a fizeram engolir histórias sobre o Eld, sobre Excalibur, sobre os pistoleiros e o Branco? Por quê? Ela era uma garota, sem amigas, sem amigos, e obviamente aqueles valores e ensinamentos não era o que precisava para arrumar um casamento quando crescesse. Por que a incentivaram a desejar algo que nunca teria?

Vannay convidou-os para dentro, e eles entraram para mais uma das aulas. Enquanto isso, naquela mesma manhã, um outro homem responsável pela forja dos novos pistoleiros pensava muito seriamente sobre esses assuntos que afligiam a garota Smithson, mesmo sem ela ter dito nada.

Khef? Não. Ela só viria a ter um ka-tet durante toda sua vida. Aquilo que havia entre ela e Cort era algo mais como pai e filha, apesar do jeito rude e tosco (que o tempo ainda não acentuara por completo), Cort vinha sendo mais presente em sua vida do que o próprio Christopher Johns.

VIII

Muito cedo, pegou numa arma pela primeira vez. Era uma pistola de cinco balas, como as dos garotos, e não era sua, assim como as dos garotos não eram deles. Cort lhe ensinara alguns versinhos que repetiria por toda a sua vida, até mesmo nos momentos em que uma possível corrupção lhe pareceria o caminho mais fácil. Eram os tais versinhos capazes de distinguir um pistoleiro de um proscrito.

Eu não miro com a mão. Eu miro com o olho. Eu não atiro com a mão. Eu atiro com a mente. Eu não mato com a arma. Eu mato com o coração.

Era tudo muito coerente em uma idade na qual não precisava saber de coerência, porém, futuramente, palavras duras saídas de lábios doces e rosados a despertariam para a realidade. Oito anos era uma boa idade. Já decorara o catecismo e atirava como adulto. No entanto, os sentimentos de garota ainda esperavam por serem despertos, e não tardaria a acontecer.

– Vejam Roland, seus vermes! – Disse Cort, com nítida impaciência. –Ele atira melhor que todos vocês juntos, e ainda é péssimo. Não consigo dizer quanto vocês são ruins. Melhorem, ou não haverá mais pistoleiros em Gilead daqui alguns anos!

O rosto de Roland expressava nada, como sempre. Seu irmão, Alain, tinha a expressão extremamente aflita. Dentro dela ardia um nervosismo que a fazia retesar todos os músculos para descarregar a ansiedade por mostrar que sabia mirar como o olho, atirar com a mente e matar com o coração. Porém este sentimento que lhe era tão conhecido, foi tirado de sua mente por alguns instantes, como se uma mão invisível os puxasse por uma cordinha e, por um momento, sentiu que poderia rir da situação. Ocorreu quando um de seus amigos lhe encarou, como uma expressão dramaticamente entediada.

– Tire este sorrisinho da cara, gusano! – Cort se dirigiu ao garoto de cabelos castanhos à direita. – Preste a porra da atenção, ou morrerá como esse maldito sorriso idiota nos lábios.

A expressão de Cuthbert ficou séria tão rapidamente que Merry teve que se controlar pra não sentir medo. Era como se o amigo tivesse tirado uma máscara. Quem seria, realmente, a pessoa por trás daquele rosto meio bobo? Desde então não sossegou até descobrir. Foi descobrir um dia antes da batalha sobre a Colina de Jericó. Tarde demais.

– Merry Allice! – Tomou um susto, retornando a realidade; como se a cordinha que puxou sua ansiedade fosse elástica e a mão que a segurava a tivesse soltado. – Olhe bem para aquele crânio. Olhe bem.

A garota olhou para a cabeça em osso do boi que fora presa à madeira, a uns vinte e cinco metros de distância. – Alain, amarre isto nos olhos dela, agora. – Entregou uma venda ao garoto.

Com a expressão triste (e um pouco engraçada), Alain amarrou a venda atrás da cabeça de sua irmã. Ela tremia de ansiedade e medo. Já sabia o que estava acontecendo.

– Vamos, garota, diga suas palavras e acerte o alvo.
Ela inspirou fundo, levando a mão direita à cintura, para facilitar.
– Eu não miro com a mão. Aquele que mira com a mão esqueceu a face de seu pai. Eu Miro com o olho.
– Justo.
– Eu… Eu não atiro com a mão. Aquele que atira com a mão esqueceu a face de seu pai. Eu atiro com a mente. – Sua voz tremia um pouco.
– Então nos prove.
– Eu não mato com a arma. – Sua voz vacilou, mas quanto seus lábios saborearam verbo matar, retomou o controle de suas emoções e, pela primeira vez, o fogo da batalha, tão conhecido de todos os pistoleiros, a deixou extremamente concentrada. Ela tinha o poder em mãos, de acabar com qualquer coisa que passasse por seu caminho. Então prosseguiu com a lição. – Eu mato com o coração.
-Então mate!

Ela levou menos de um segundo para sacar a arma e acertar em cheio no centro do crânio. Foi um único tiro, uma ação limpa, e sabia que tivera êxito, pois o que se seguiu ao eco do tiro foi o mais completo silêncio. Quando percebeu que a prova havia acabado, colocou a venda sobre a testa e olhou ao redor. O sol amarelo de Gilead ofuscou seus olhos, como um falcão que acabara de ser liberado para a caça. Podia enxergar cada cicatriz no rosto de Cort.

– Esta garota nunca terá um pelo na cara, e consegue atirar como um verdadeiro pistoleiro.
Apesar do elogio a ter deixada roxa de tão corada, ela relutou em aceitá-lo.
– Mas, Cort, eu não acertei sem a venda! – Contestou ela.
– Você mirou com o olho, antes de tê-lo tampados E atirou com a mente. Percebem? – O tom de Cort parecia mais ameno. – Percebem que devem agir assim para não serem mortos e acabarem regando a terra com seus sangues de verme? Agora vão embora daqui e pensem na lição.

– Como você fez aquilo? – Agora a voz de Alain tinha assombro explícito.
-Eu não sei, Al, juro… – Respondeu ela, baixinho, tirando a venda por cima da cabeça, a mão direita ainda segurando a pistola de treino. – Acho que preciso aprender a fazer isso com os olhos abertos, agora…

Roland estava parado um pouco distante, com Jamie DeCurry a seu lado. Cuthbert foi embora sem falar com qualquer um deles, mas antes lhe lançou um olhar cavernoso, cheio de mágoa e (desconfiava ela) inveja. Aquilo a entristeceu, embora não soubesse o porquê. E Alain percebeu, por que Alain percebia muitas coisas.

– Não ligue. Bert está com ciúmes. – Disse. – Por que você atira melhor que ele.
– Mas eu não atiro, Alain! – Exclamou ela, irritando-se. – Eu só dei sorte!
– Não deu, não. – Riu-se o irmão. – Você é boa. Deve estar no seu sangue, sei lá.
Aquilo foi estranho. Eram irmãos, mas na eram filhos dos mesmos pais, e não era segredo entre eles.
– É, talvez esteja… – E não disse mais nada.

Deixou o campo onde treinavam pontaria sozinha e sem falar com mais ninguém, e a expressão do amigo não saiu de sua cabeça por um longo tempo.

Continua…

Edilton Nunes

Edilton Nunes

Graduado em Letras pela UEG (Universidade Estadual de Goiás), viciado em literatura de terror/suspense, amante incondicional de séries e Hq´s e fã de carteirinha do mestre Steve há pelo menos 20 anos.

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4 Responses to “Fan Art: “O Caminho do Eld””

  1. Mélani (Allgood) Sant'Ana disse:

    Obrigada, gente! Adorei ter a Fic publicada aqui!

    Vida para vossas colheitas!

  2. @cyberlivingdead disse:

    Eu acompanho a Fan Fic desde o começo! Realmente excepcional! Cada parte sempre me deixa ainda mais ansioso para a próxima…a Mélani escreve muito bem e já pedi para ela que quando publicar seu primeiro livro quero um exemplar autografado. xD

  3. Jonetta disse:

    I had no idea how to approach this before-now I’m locked and loaedd.

  4. Chuck disse:

    Heck of a job there, it abslotuely helps me out.

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