Stephen King: “Porque eu fui Bachman”

No início da carreira de Stephen King, a opinião geral entre os editores era que um autor deveria se limitar a um livro por ano. Ultrapassar esse limite deixaria o mercado saturado de títulos dos autores e isso não era bom. King, portanto, teve a ideia de escrever com outro nome, afim de aumentar a sua publicação, sem que para isso acabasse saturando a “marca King”. Ele convenceu o sua editora, Signet Books, a imprimir esses romances sob um pseudônimo. Em sua introdução aos Livros de Bachman, King diz ainda que Bachman era também uma tentativa de dar sentido a sua carreira e tentar responder à questão de saber se o seu sucesso devia-se ao talento ou sorte…

O pseudônimo originalmente selecionado (Gus Pillsbury) era o nome do avô materno de King, mas no último momento ele mudou para “Richard Bachman”, em homenagem ao autor de livros policiais Donald E. Westlake que usava o pseudônimo Richard Stark. O sobrenome Stark foi usado mais tarde no romance de “King The Dark Half”, onde o pseudônimo que o autor usava era “George Stark”. O sobrenome era em honra de Bachman-Turner Overdrive, uma banda de Rock que King estava ouvindo no momento.

King dedicou os primeiros livros de Bachman – Rage (1977), The Long Walk (1979), Roadwork (1981) e The Running Man (1982) – a pessoas próximas a ele, e trabalhou em referências obscuras a sua própria identidade. Esses indícios, para não mencionar a semelhança entre os estilos dos dois autores literários, despertou as suspeitas dos fãs de horror e varejistas.

King negava constantemente qualquer ligação com Bachman e, numa tentativa de tirar os fãs da jogada, dedicou o romance de 1984 (Thinner ou “A Maldição do Cigano” no Brasil) para “Claudia Inez Bachman,” que era, supostamente, a esposa de Bachman. Havia também uma foto falsa do autor na sobrecapa, creditada a Claudia. Ele também descreve os fatos ocorridos com personagens do livro como “acontecimentos estranhos como numa novela de Stephen King”

A ligação entre King e Bachman tornou-se exposta depois que um persistente balconista de livraria de Washington DC, Steve Brown, recusou-se a acreditar que Bachman e King não eram a mesma pessoa. Brown localizou registros da Biblioteca do Congresso e descobriu um documento nomeando King como o autor de um dos romances de Bachman. Depois disso, ele enviou uma carta aos editores de King, com uma cópia dos documentos encontrados, perguntando-lhes o que fazer. Duas semanas depois, Stephen King telefonou para Brown pessoalmente e sugeriu que ele escrevesse um artigo sobre como ele descobriu a verdade, se propondo a ser entrevistado. Isto fez com que fosse levada a publico a noticia da morte de Bachman -.. supostamente de “câncer do pseudônimo”, em um artigo escrito por Brown no Washington Post – na época do anúncio, em 1985 , King estava trabalhando em “Misery” (Angústia), que ele tinha planejado para publicar como um livro de Bachman.

Em 1987, o romance de Bachman “The Running Man” inspirou o filme de Paul Glaser com o mesmo nome. King insistiu que seu nome não constasse nos créditos, e o crédito de tela para o filme foi para Richard Bachman.

King usou o “relacionamento” entre ele e Bachman como um conceito em seu livro de 1989 The Dark Half. No romance o obscuro pseudônimo de um escritor assume uma vida própria. King dedicou The Dark Half “ao final de Richard Bachman.” Originalmente havia planos para tornar o livro uma colaboração entre os dois, mas posteriormente King desistiu da ideia. Em 1996, “The Regulators” (Os Justiceiros) saiu, com os editores do livro afirmado que o manuscrito foi encontrado entre os papéis de Bachman, por sua viúva. Ele foi lançado como um romance gêmeo de “Desperation” (Desespero) de King. As duas capas de livros foram concebidos para serem colocados em conjunto para formar uma única imagem. No prefácio de “Desperation” King disse que poderia haver uma outra novela Bachman que deixou de ser “encontrada”.

O próximo livro a ser descoberto foi Blaze. Foi, na verdade, um romance inédito de King, escrito antes de Carrie ou da criação de Richard Bachman. King reescreveu, editou e atualizou a novela inteira. Em fevereiro de 2007, foi confirmado que Scribner iria publicar o livro em Junho de 2007.

King utilizou o nome de Bachman em numerosas ocasiões, como com a reedição dos primeiros quatro títulos: The Bachman Books: Quatro primeiros romances de Stephen King em 1985. A introdução, intitulada “Porque eu fui Bachman” (mais detalhes na continuação deste post), detalha a história Bachman/King toda. (Em 1996, a coleção foi relançada com um ensaio novo de Kin intitulado: “A Importância de Ser Bachman.”)

Richard Bachman também foi citado na série A Torre Negra. No quinto livro, Lobos de Calla, o livro das crianças sinistras, Charlie o Choo Choo, é revelado como escrito por “Claudia y Inez Bachman.” A discrepância ortografia da adição do ‘y’ foi explicada mais tarde como um deus ex machina, por parte de “O Branco” (a força do bem ao longo da série da Torre) para trazer o número total de cartas em seu nome para 19, um número de destaque na série.

Após o tiroteio na escola Heath High, King anunciou a proibição da novela “Rage” (Fúria) temendo que isso pudesse inspirar tragédias semelhantes. Rage por um tempo continuou a estar disponível no Reino Unido em O Livros Bachman. Em uma nota de rodapé no prefácio de Blaze, de 30 de Janeiro de 2007, King escreveu sobre Rage:. “Agora fora de catálogo, e é uma coisa boa. ” Outros romances de King Bachman estão disponíveis nos EUA e no Brasil em volumes separados, bem como no volume (raro) de “Os Livros de Bachman” (ainda com o conto Fúria).

Em 2010, King apareceu no seriado de TV (do qual ele é fã assumido) “Sons of Anarchy”, em uma participação especial. Seu personagem, chamado Bachman, era contratado para eliminar cadáveres.

Na edição 29 da adaptação dos quadrinhos de The Stand, Richard Bachman aparece como um dos principais tenentes de Randall Flagg. Ele é desenhado para se parecer com King. Ele substitui o personagem de Whitney Horgan do romance original.

POR QUE EU FUI BACHMAN
Por Stephen King

1

Entre 1977 e 1984, publiquei cinco romances sob o pseudônimo de Richard Bachman. Foram eles Fúria (1977), A longa marcha (1979), A auto-estrada (1981), O Sobrevivente (1982), e A maldição do cigano (1984). Houve duas razões por que acabei finalmente ligado a Bachman: em primeiro lugar porque os quatros primeiros livros, todos eles originais em brochura, foram dedicados a pessoas ligadas a mim e, em segundo, porque meu nome apareceu na indicação de copyright de um dos livros. Agora pessoas me perguntaram por que fiz isso e acho que não tenho respostas muito satisfatórias. Bom que não matei ninguém, certo?

2

Posso fazer algumas sugestões, mas só isso. A única coisa importante que jamais fiz na vida por uma razão consciente foi pedir Tabitha Spruce, a colega de faculdade com quem namorava, se queria casar comigo. A razão era que eu estava perdidamente apaixonado por ela. A piada é que o amor é uma emoção irracional e indefinível. Às vezes, alguma coisa simplesmente diz Faça isto ou Não faça aquilo. Eu sempre obedeço a essa voz, e quando desobedeço, geralmente me dou mal. O que estou dizendo é que encaro a vida como o cara que joga na base do palpite. Minha mulher me acusa de ser um virginiano intoleravelmente minucioso e acho que sou, em algumas coisas – sei em geral, em qualquer dado momento, quantas peças de um quebra-cabeças de quinhentas peças coloquei, por exemplo – mas nunca, realmente, planejei nada importante que fiz, isso inclui os livros que escrevi. Nunca me sentei e escrevi uma página com a mais vaga idéia de como as coisas iam se desenvolver. Certo dia, ocorreu-me que devia publicar Getting It On, um romance que a Doubleday quase publicou dois anos antes de publicar Carrie, sob pseudônimo. A coisa me pareceu uma boa idéia e fui em frente. Como eu disse, bom que não matei ninguém, ahn?

3

Em 1968 ou 1969, Paul McCartney, numa entrevista, disse uma coisa espantosa e que revelara um anelo. Disse que os Beatles haviam discutido a idéia de ganharem a estrada como pequena banda, sob o nome de Randy and the Rockets. Usariam roupas de vendedores de sorvete e máscaras à lá Conde Cinco, explicou, ninguém os reconheceria e eles simplesmente fariam uma grande fará, como nos velhos dias. Quando o entrevistador sugeriu que eles seriam reconhecidos pela voz, Paul pareceu no início espantado… e depois um pouco apavorado.

4

Cub Koda, que é possivelmente o maior e mais popular roqueiro da América, contou-me a história seguinte sobre Elvis Presley e, como disse, se ela não é verdadeira, deveria ser. Segundo Cub, Elvis disse a uma jornalista mais ou menos o seguinte: “Eu era como uma vaca num cural em companhia de um bocado de outras cavas, apenas dei um jeito de escapar. Bem, eles chegaram, me pegaram e me botaram em outro cural, apenas era maior e só meu. Olhei em volta vi que a cerca era tão alta que eu nunca sairia dali. De modo que eu disse: Tudo bem, então vou pastar.”

5

Escrevi cinco romances antes de Carrie: Dois foram ruins, um foi banal e achei que dois deles eram muito bons. Os dois foram Getting It On (que se transformou em Fúria ao ser finalmente publicado), e A longa marcha. Getting It On, foi iniciado em 1966 quando eu era ultimanista na escola secundária. Mais tarde, encontrei-o cobrindo-se de mofo em uma velha caixa no porão da casa onde cresci – uma descoberta realizada em 1970. Terminei o romance me 1971. Escrevi A longa marcha no outono de 1966 e primavera de 1967 época em que eu era calouro na faculdade. Inscrevi o Marcha no concurso de romances inéditos de Bennett Cerf/Randon House no outono de 1967 e o livro foi imediatamente rejeitado com uma nota formal… sem nenhum comentário de qualquer tipo. Magoado e deprimido, convencido de que o livro devia ser um horror, enfiei-o no lendário BAÚ que todos os romancistas, publicados e aspirantes, carregam de um lado para o outro. Nunca mais o ofereci até que Elaine Geiger, da New American Library, perguntou se “Dicky” (como nós o chamamos) ia seguir-se ao Fúria. O A longa marcha voltou ao BAÚ, mas como diz Bob Dylan na Tangled Up In Blue, nunca me saiu da lembrança. Nenhum deles jamais me saiu da lembrança – nem mesmo os realmente ruins.

6

Os números se tornaram enormes. Isso é parte da coisa. Há ocasiões em que me sinto como se tivesse plantado um modesto pacote de palavras, que cresceram e se transformaram em um espécie de pé de feijão mágico… ou um jardim em que a vegetação cresceu luxuriante e descontroladamente (VENDIDOS MAIS DE 40 MILHÕES DE LIVROS DE KING!!!, como meu editor gosta de trombetear). Ou, dizendo de outra maneira – às vezes me sinto como Mickey Mouse em Fantasia. Eu sabia o suficiente para pôr as vassouras em movimento, mas logo que elas começaram a marchar, as coisas nunca mais foram as mesmas. Estou me queixando? Não. Pelo menos, se estou, são queixas muito pequenas. Fiz o que me era possível para seguir aquele outro conselho de Dylan e cantar em meus grilhões, como o mar. Eu poderia concordar com tudo e me lamentar como é difícil ser Stephen King, mas, por alguma razão, não acho que as pessoas que andam por aí e que estão , a) desempregadas ou, b) dando um duro danado todas as semanas para conseguir pagar as prestações da casa e a conta do MasterCharger, fossem sentir muita pena de mim. Nem eu esperaria isso. Continuo casado com a mesma mulher, meus filhos são sadios e inteligentes e estou sendo bem pago por fazer uma coisa que adoro. De modo que, queixar-me do quê? De nada. Quase.

7

Memorando a Paul McCartney, se ele estiver lá: o jornalista tinha razão. O público teria reconhecido sua voz, mas mesmo antes de vocês abrirem a boca, teria identificado os trinados da guitarra de George. Escrevi cinco livros como Randy and the Rockets e desde então ando recebendo cartas me perguntando se fui Richard Bachman desde o início. Minha resposta às cartas foi a própria simplicidade: eu menti.

8

Acho que fiz isso para baixar um pouco a pressão, para fazer alguma coisa como outra pessoa que não Stephen King. Acho que todos os romancistas são inveterados artistas de teatro e dói divertido ser alguém durante certo tempo – neste caso, Richard bachman. E ele de fato criou uma personalidade e uma biografia para acompanhar a foto do falso autor na contracapa de A maldição do cigano e a falsa esposa (Claudia Inez Bachman) a quem o livro é dedicado. Bach, um tipo muito desagradável, nasceu em Nova York e passou uns dez anos na marinha na região rural central de New Hampshire, onde escrevia à noite e cuidava de uma granja de gado leiteiro, de tamanho médio, durante o dia. Os Bachmans tiveram um filho, que morreu em um triste acidente, com a idade de cinco anos (caiu pela tampa de um poço e morreu afogado). Há três anos, os médicos descobriram um tumor na base do cérebro de Bachman, extirpado mediante delicada cirurgia. Ele faleceu de repente em fevereiro de 1985 quando o Daily News, de Bangor, o jornal de minha cidade natal, publicou uma matéria dizendo que eu era Bachman – reportagem que confirmei. Às vezes, até que era divertido ser Bachman, um recluso mal-humorado à J.D. Salinger, que nunca concedia entrevistas e que, em um questionário pedindo dados do autor, submetido pela New English Library, de Londres, escreveu “adoração de galo” no espaço reservado à religião.

9

Várias vezes me perguntaram se fiz isso porque pensava que estava saturando o mercado como Stephen King. A resposta é não. Não pensava que estivesse saturando o mercado… embora meus editores achassem isso. Bachman forneceu um meio-termo às duas partes. Meus “editores de Stephen King” eram como uma esposa frígida que só queria transar uma ou duas vezes por ano, encorajando o sempre ardente marido a procurar uma piranha. Bachman estava aonde eu ia quando precisava de alívio. Isso, contudo não explica de modo algum por que eu sentia essa inquieta necessidade de publicar o que escrevo quando não preciso de dinheiro. Repito, que bom que não matei ninguém, hummm?

10

Várias vezes me perguntaram se fiz isso porque me sentia fundido como autor de histórias de horror. A resposta é não. Não dou a mínima merda para o que as pessoas me chamem, enquanto eu puder dormir à noite. Não obstante, apenas o último dos livros de Bachman é uma história de horror total e este fato não me escapou. Escrever, como Stephen King, alguma coisa que não fosse horro seria muito fácil, mas responder a perguntas sobre o motivo por que fiz isso seria um bocado chato. Quando escrevi ficção comum como Richard Bachman, ninguém fez perguntas. Na verdade, ah-ah, praticamente ninguém leu os livros.
O que me leva ao que poderia ser – bem, não a razão porque, para começar, aquela voz falou, mas à coisa mais parecida com ela.

11

Você tenta achar sentido em sua vida. Todo mundo tenta fazer isso, acho, e parte de achar sentido nas coisas consiste em encontrar razões… ou constantes… coisas que não variam. Todo mundo faz isso, mas talvez as pessoas que levam vidas extraordinariamente felizes ou infelizes façam isso um pouco mais. Parte de você quer pensar – ou deve pelo menos especular – que foi atingido pela maldição do câncer porque era um dos caras maus (ou um dos bons, se acredita na Lei de Durocher). Outra parte quer pensar que você deve ter sido um f.d.p. esforçado, ou um verdadeiro príncipe ou, quem sabe, mesmo um da Santa Multidão, se acaba numa boa em um mundo onde pessoas morrem de fome, passam fogo umas nas outras, são queimadas pelas drogas, viram vagabundos, enchem a cara, são enrabadas. Mas há outra parte que sugere que tudo isso é uma loteria, um espetáculo do tipo sua sorte-sua morte, não muito diferente de “Roda da Fortuna” ou “Acertou, Levou” (dois dos livros de Bachmam, incidentalmente, tratam de competições do tipo sua sorte-sua morte). Por algum motivo, deprime a pessoa pensar que tudo foi – ou foi mesmo na maior parte – um acidente. De modo que a pessoa tenta descobrir se pode repetir a dose. Ou, no meu caso, se Bachman podia repetir a dose.

12

A pergunta continua sem resposta, Os quatros primeiros livros de Richard Bachman não venderam absolutamente bem, em parte porque foram lançados sem estardalhaço. Todos os meses, editoras de brochuras lançam três tipo de livros “líderes”, que são prodigamente anunciados, exibidos em Displays (o termo do ramo para aqueles cartazes vistosos que você vê em frente de sua cadeia local de livrarias) e que geralmente têm capas de corte e vinco ou são estampadas metalizadas; “sublíderes”, anunciados com menos despesas, menos prováveis de ganharem “display”, e que se espera menos que venda milhões de exemplares (duzentos mil exemplares vendidos seriam um resultado muito bom para um sublíder); e simplesmente livros comuns. Esta terceira categoria é o equivalente no mundo editorial das brochuras à guerra de trincheiras… ou bucha para canhão. “Simplesmente livros comuns” (o único outro termo que posso pensar é subsublíderes, mas isso é realmente deprimente), raramente são reedições de livros de capa dura. São em geral livros que figuram no fim do catalogo, com novas capas, romances do gênero (góticos, romances do período da Regência, faroestes, e assim por diante, ou livros de séries como O Intocável, Os Mercenários, As aventuras sexuais da abóbora tesuda… vocês sabem como é. E, de raro em raro, você encontra autênticos romances sepultados nesse profundo substrato e os romances de Bachman não são o único caso em que tais romances foram trabalho de escritores conhecidos, enviando despachos sob os pseudônimos Tucker Coe e Richard Stark; Evan Hunter como Ed McBain; Gore Vidal escolheu o nome Edgar Box. Mais recentemente, sob nome suposto, Gordon Lish publicou uma brochura original e estranhíssima intitulada The Stone boy. Os romances de Bachman foram “simplesmente livros comuns”, brochuras para encher as estantes de farmácias e estações de ônibus da América. Isso foi feito a pedido meu. Eu queria que Bachamn mantivesse uma postura discreta. De modo que, nesse sentido, o pobre cara teve, desde o início, os dados viciados contra ele, Ainda assim, aos poucos Bachman conseguiu criar um obscuro culto de admiradores. Seu último livro, A maldição do cigano, vendeu vinte e oito mil exemplares em capa dura antes que o vendedor de uma livraria de Washington e um escritor chamado Steve Brown ficassem desconfiados, foram à Biblioteca do Congresso e descobriram meu nome como uma das formas de copyright de Bachman. Vinte e oito mil exemplares não é muita coisa – certamente não se inclui no território dos best-sellers – mas representam quatro mil exemplares a mais do que meu livro Night Shift vendeu em 1978. Minha intenção era que Bachman, em seguida a A maldição do cigano, escrevesse um apavorante romance de suspense que seria intitulado Angústia/Misery, que penso que poderia ter levado “Dicky” para a lista dos best-sellers. Claro que nunca saberemos, certo? Richard Bachman, que sobreviveu a um tumor cerebral, acabou por falecer de uma doença muito mais rara – câncer do pseudônimo. Faleceu com aquela pergunta – é a obra que o leva até o alto ou é tudo simplesmente uma loteria? – ainda por responder. Mas o fato de A maldição do cigano ter vendido vinte e oito mil exemplares quando Bachman era o autor e duzentos e oitenta mil quando Stephen King tornou-se o autor, bem que pode lhe dizer alguma coisa, certo?

13

Há um estigma ligado ás idéias de pseudônimo. Isso não acontecia no passado. Houve época em que escrever romances era considerado ocupação subalterna, mais vicio do que profissão, e o pseudônimo parecia por isso uma maneira inteiramente natural e respeitável de respeitar o individuo (e seus parentes) de embaraços. Aumentando o respeito pela arte do romance, as coisas mudaram. Os críticos e leitores em geral tornaram-se desconfiados de trabalho produzidos por homens e mulheres que preferiam esconder a identidade. Se fosse bom, parece ter sido a opinião muda, o cara teria posto seu verdadeiro nome no livro. Se mentiu sobre o nome, o livro deve ser uma droga. De modo que quero encerrar estas observações dizendo algumas palavras sobre o valor desse livros. São bons romances? Não sei. São romances honestos? Acho que são. De qualquer maneira, a intenção que os ditou foi honesta e foram escritos com uma energia com a qual apenas posso sonhas nestes dias (O sobrevivente, por exemplo, foi escrito num período de 72 horas e publicado sem virtualmente alteração alguma). São uma droga? No todo, não. Em alguns lugares… beeemmmm… Eu não era suficientemente jovem quando estas histórias foram escritas para poder descarta-las como coisas da juventude. Por outro lado, eu ainda era suficientemente bisonho para acreditar em motivações simples demais (muitas delas dolorosamente freudianas) e em finais infelizes. O mais recente dos livros de Bachman incluídos neste volume, A autoestrada, foi escrito entre A hora do vampiro e O Iluminado e constituiu um esforço para escrever um romance “direito”. (Eu era também suficientemente jovem naqueles dias para me preocupar com uma pergunta casual, como uma dessas feitas em coquetéis: “Tudo bem, mas quando é que você vai escreve alguma coisa séria?”). Acho que foi também um esforço para achar algum sentido na dolorosa morte de minha mãe um ano antes – um câncer demorado que acabou com ela, um doloroso centímetro após outro. Em seguida a essa morte, passei um período angustiado e abalado pela visível falta de sentido de tudo aquilo. Desconfio que a A auto-estrada é o pior do grupo simplesmente porque s esforça tanto para ser bom e para encontrar umas poucas respostas ao enigma da dor humana. O inverso é O Sobrevivente, que talvez seja o melhor dos quatro porque nada mais é que uma história – desenvolve-se com a velocidade bobalhona de um filme mudo e tudo não é uma história é jogado alegremente para os lados. A longa marcha e Fúria estão cheias de empolgadas pregações psicológicas (tanto textuais como subtextuais), mas nesses romances ainda há um bocado de história – em última análise, o leitor estará mais bem equipado do que o autor para chegar a uma conclusão se a história é suficiente para superar todos os fracassos de percepção e motivação. Eu acrescentaria apenas que esses romances, talvez mesmo todos os quatro, poderiam ter sido publicados com meu próprio nome se eu estivesse um pouco mais por dentro no negócio editorial ou se houvesse estado preocupado nos anos em que foram
escritos com, em primeiro lugar, em completar meus estudos e, em segundo, sustentar minha família. E que os publiquei (e estou permitindo que sejam reeditados agora) porque ainda são meus amigos. Estão sem dúvida alguma mutilados de algumas maneiras, mas para mim ainda parecem muito vivos.

14

E algumas palavras de agradecimentos: a Elaine Koster, editora da NAL (que se chamava Elaine Geiger quando esses livros foram publicados pela primeira vez), e que manteve o segredo de “Dicky” por tanto tempo e com tal perfeição; a Carolyn Stromberg, primeira editora de texto de “Dicky”, e que fez o mesmo; a Kirby McCauley, que vendeu os direitos e também manteve fielmente e bem o segredo; a minha esposa, que me estimulou nestes livros exatamente como fez nos outros, que acabaram por se transformar em fontes tão generosas e faiscantes de renda; e como sempre, a você, leitor, por sua paciência e bondade.

STEPHEN KING
Bangor, Maine

Fontes: “Os Livros de Bachman” (S.K) e Kingpédia

Edilton Nunes

Edilton Nunes

Graduado em Letras pela UEG (Universidade Estadual de Goiás), viciado em literatura de terror/suspense, amante incondicional de séries e Hq´s e fã de carteirinha do mestre Steve há pelo menos 20 anos.

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2 Responses to “Stephen King: “Porque eu fui Bachman””

  1. Lana Francielle lanafsipe disse:

    Muito Boa!!!

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