Entrevista: Fabiano Morais

Na época do lançamento de “Duma Key” a equipe do site projeto19.com realizou uma entrevista com Fabiano Morais, tradutor de grande parte dos títulos recentes de Stephen King lançados no Brasil. Se você perdeu, eis a sua chance acompanhar novamente a entrevista no post que se segue. Fabiano foi o responsável pela tradução de títulos como: “Duma Key”, “Love, a história de Lisey” e do poema épico “Childe Roland, A Torre Negra Chegou!”

Fabiano Morais nasceu em Três Rios, interior do estado do Rio de Janeiro, tem 27 anos e trabalha como tradutor há cerca de cinco anos. Antes disso trabalhou durante quatro anos como estagiário e depois como Assistente Editorial da Editora Objetiva. Fabiano também é formado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mora a quase 15 anos em Niterói.

Projeto 19: Olá Fabiano! Primeiramente gostaríamos de saber como foi seu inicio de carreira e como você começou a traduzir King?

Fabiano: Bem, meu primeiro contato com o King foi quando trabalhava na Objetiva e ficava responsável pelo copidesque das traduções dele. Fiz o cópi, nesta época, de livros como o “Tripulação de Esqueletos” e o “Dança Macabra” e neles meu nome saiu creditado como Editor de Texto. Quando saí da Objetiva para me tornar tradutor free-lancer, depois de fazer livros como “Milagre no Andes” e “O Menino Americano”, a editora achou que eu poderia fazer um bom trabalho com o King, por já conhecer bem o autor da época em que trabalhava lá. Daí resolveram me passar o “Celular”. Gostaram do resultado e, desde então, já fiz mais dois livros do autor; “Love – A História de Lisey” e “Roadwork”, e começo em 15 de setembro deste ano meu quarto: o inédito “Duma Key”.

Projeto 19: Conte-nos um pouco sobre como funciona o processo de tradução de um livro.

Fabiano: É preciso ter muita disciplina para se traduzir algo de fôlego como um livro. Geralmente não faço mais do 100-120 páginas de um livro por mês, e, como geralmente estou com mais de um, os alterno, trabalhando cada dia em uma tradução. Assim faço uma média de 10, no máximo 12, páginas por dia. É, enfim, um trabalho relativamente árduo, que me ocupa full-time.

Projeto 19: De quem foi a idéia do titulo “Love, A historia de Lisey?

Fabiano: O título “Love” foi idéia da Editora Objetiva, que se baseou, tanto no título quanto na capa, na edição alemã. O nome de um livro traduzido é, na maior parte dos casos, fruto de uma decisão interna da editora.

Projeto 19: Quais foram as maiores dificuldades encontradas por você nas traduções de “Cell” e “Lisey Story”?

Fabiano: No caso dos livros do King, talvez o mais difícil sejam os neologismos e brincadeiras de linguagem, assim como reproduzir a naturalidade com que os personagens falam. É muito difícil deixar os diálogos tão fluentes como no original. Reviso várias vezes a tradução antes de entregá-la e, geralmente, o resultado final é bem distante da primeira versão. Tento burilar ao máximo o texto para que o leitor “se esqueça” que está lendo uma tradução.

Projeto 19: Quanto tempo demora, em média, a tradução de um livro grande como “Lisey´s Story” e como você se sentiu ao terminar a tradução? Aliviado?

Fabiano: O “Love” demorou quase seis meses. Pedi um prazo de cinco meses e precisei de 15 dias extras para a revisão final. Como disse acima, não passo de 100, no máximo 120, páginas por mês. O Duma Key terá um prazo ainda maior, por ter 600 páginas. Fico mesmo aliviado quando entrego uma tradução. É muito tempo no mesmo universo, o que pode ser tornar bastante cansativo. Mas, quando estou convencido de que o trabalho está bem feito — o que nem sempre acontece, pois sou hipercrítico quanto às minhas traduções –, devo admitir que sinto também uma ponta de orgulho.

Projeto 19: Como foi traduzir “Roadwork?” Pode nos adiantar algo sobre o novo “Bachman Book?”

Fabiano: O Roadwork teve suas dificuldades específicas, por ser um livro muito datado, muito “produto da sua época”. Tive que pesquisar bastante sobre o governo Nixon e sobre a década de 1970 nos Estados Unidos, um período muito rico e conturbado. Gostei do livro e, sinceramente, não vi muita diferença da produção habitual do King, tirante o fato de não haver o elemento fantástico. Os maneirismos, o humor, está tudo lá. É, talvez, um livro mais amargo, mais desesperançoso. Há, como o próprio King fala na introdução, muita raiva mal-resolvida, muita culpa católica e repressão no personagem principal.

Projeto 19: De todos os livros que você já traduziu, qual deles foi o mais complexo? E por quê?

Fabiano: Posso dizer que o livro mais complexo foi mesmo o “Love – A História de Lisey”, pelo que falei anteriormente: os neologismos, as brincadeiras de linguagem, etc. É um livro com um léxico muito peculiar e de difícil tradução: seria muito fácil cair no ridículo em relação a alguns termos. Acho que consegui manter um pouco da cor do original sem exagerar nas “invencionices”.

Projeto 19: Seguindo na contramão da pergunta anterior, de todos os livros que você já traduziu, de qual mais gostou? E Por quê?

Fabiano: Talvez o que mais tenha gostado tenha sido “O Menino Americano”, de Andrew Taylor, que fiz para a Objetiva. Foi meu primeiro livro “difícil”, de literatura. Um dos personagens é o Edgar Allan Poe — um de meus autores favoritos — quando criança. Foi um livro bastante desafiador e divertido de se traduzir.

Projeto 19: Já “topou de frente” com algum termo que não tem seu equivalente na língua portuguesa? O que você faz nessas situações?

Fabiano: Sempre acontece. O negócio é tentar “driblar” os limites do trabalho do tradutor, seja através de uma adaptação ou, na pior das hipóteses, de uma nota. Em Celular, “phone-crazy” virou “fonático”, por exemplo. Já os “bools” do Love tiveram que ficar no original, pois não havia outra saída. Enfim, cada caso é um caso, mas eles são muito mais freqüentes do que parece.

Projeto 19: A tradutora Alda Porto recebeu fortes criticas dos fãs mais ardorosos com relação às traduções de algumas edições da série “A Torre Negra”, onde foram utilizados alguns termos diferentes dos outros volumes (Lumina, por exemplo, virou “solvente”). Como é traduzir as obras de um escritor cuja legião de fãs é no mínimo exigente? Você já recebeu algum e-mail de um fã irado que não tenha gostado de alguma tradução?

Fabiano: Felizmente ainda não recebi nenhum e-mail irado de fãs! Vi na comunidade do Orkut que minhas traduções vêm sendo bem recebidas, o que, para mim, é muito importante. Foi por saber que os fãs do King são exigentes que entrei em contato com eles na comunidade Stephen King Brasil, no Orkut. Acho que é um privilégio ser a pessoa que faz a ponte entre um autor e seus leitores, e tento ser o mais respeitoso possível para que a mensagem de um seja passada para o outro com o mínimo de ruído possível. Discordo um pouco da idéia de que o tradutor é um “criador”, um “co-autor”. Pode ser que em alguns casos extremos isto seja verdade, como na tradução de um Faulkner, ou de um Joyce, mas prefiro pensar no tradutor como uma criatura mais humilde, que decodifica o que um autor quer dizer e o transmite da forma mais fiel possível. Não creio que minha missão seja outra que não ter respeito e fidelidade ao texto original e à mensagem que o autor queira passar. E isso já é muita coisa.

Projeto 19: Na sua opinião, porque ainda não foram traduzidos livros de sucesso como “Hearts in Atlantis” (o mesmo originou um filme de igual sucesso com Anthony Hopkins), “The Girl Who Loved Tom Gordon” ou “Colorado Kid?”

Fabiano: A editora tem um longo backlist de livros do King para lançar e imagino que tenha dado prioridade, até então, a livros que acreditam ter uma penetração de mercado maior, como os inéditos e livros antigos mais conhecidos, como os de contos, por exemplo. Porém, estou apenas especulando e imagino que um dia veremos estas traduções nas livrarias.

Projeto 19: O que é preciso (além do domínio da língua inglesa, é claro) para tornar-se um bom tradutor atualmente?

Fabiano: Antes de mais nada, um bom texto em português, independente de ser ou não tradução. O bom conhecimento das duas línguas é, obviamente, essencial, mas não adianta de nada se não estiver aliado a um texto fluente e “leve”. Se você escreve bem, possivelmente vai traduzir bem. É preciso também disposição para pesquisar e desconfiar sempre: se você não está 100% convencido de que o sentido de uma frase é aquele que inferiu, pesquise e certifique-se de que é aquilo mesmo. Na maioria das vezes, seus “palpites” estão errados, de modo que pesquisar é essencial. É preciso também conhecimento de mundo, no sentido de se ter curiosidade intelectual. Para mim, tudo me ajuda a ser um melhor tradutor: os livros que leio, os filmes que vejo, as músicas que ouço, até o chope com os amigos e o jogo de videogame. Não existe cultura inútil, pois todo “produto” cultural que você consome é “capital intelectual” (termos com os quais implico, mas que dão a idéia do que quero dizer). Há quem diga que é essencial ter morado ou passado um bom período em um país que fale a língua que você traduz… bom, imagino que ajude bastante, mas eu, por exemplo, nunca saí do sudeste/sul do país. Acho que o essencial é isso: curiosidade intelectual, um texto claro, vontade de pesquisar, ler sempre e de tudo e muita, muita disciplina mesmo.

Projeto 19: Além de tradutor, você também já trabalhou como assistente editorial e revisor. Quais são seus projetos para o futuro, dentro ou fora da área de tradução?

Fabiano: A tradução ocupa todo o meu tempo e suga toda minha energia de trabalho, de modo que não consigo fazer muita coisa a mais profissionalmente. Porém, como adoro traduzir e me sinto um felizardo por trabalhar com livros e em casa, me vejo sentado na frente do computador arrancando sentidos do papel para o arquivo de word por muito, muito tempo. Encontrei algo em que sou bom e que amo fazer… o que mais poderia querer da vida? Escrevo poesias, de modo que espero um dia ter tempo de escrever mais e, quem sabe, organizar material para uma coletânea… penso em me aventurar nos contos, também. Mas tudo isso vai ter que esperar um pouco. Minha meta agora é me consolidar mais como tradutor e, quem sabe, no futuro, até dar cursos sobre o assunto.

Projeto 19: Por fim, Fabiano, gostaríamos de agradecer a sua participação e parabenizá-lo pelo belíssimo trabalho que está fazendo com as traduções dos novos títulos do King no Brasil.

Fabiano: Muito obrigado! Espero continuar entregando traduções à altura do King e de seus fãs Brasileiros!

Entrevista originalmente publicada em: projeto19.com

Edilton Nunes

Edilton Nunes

Graduado em Letras pela UEG (Universidade Estadual de Goiás), viciado em literatura de terror/suspense, amante incondicional de séries e Hq´s e fã de carteirinha do mestre Steve há pelo menos 20 anos.

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One Response to “Entrevista: Fabiano Morais”

  1. @cyberlivingdead disse:

    Realmente traduzir é uma atividade de grande peso e é ainda mais pesada quando há por trás das cortinas uma legião de fãs exigentes.

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