Personagem da semana: Overlook Hotel

Assim como na maioria dos livros de Stephen King, o papel de maior destaque no romance “O Iluminado” não vai para o garoto que dá título ao livro, mas sim para o vilão, o próprio Overlook Hotel. Funcionando praticamente como uma entidade com vida própria, o Hotel mal assombrado ganha lugar de destaque no romance ao “brincar” em diferentes níveis com a psique humana dos seus convidados, principalmente com Jack e seu declarado problema com o Álcool (além, é claro, de Danny e sua capacidade sobre-humana de enxergar coisas que os outros não podem ver). Dessa forma, nada mais justo do que colocá-lo no topo da lista de melhores vilões criados por Stephen King, presentando vocês, fieis leitores, com um breve dossie sobre um dos hotéis mal-assombrados mais conhecidos da literatura…

Sobre o passado do Overlook: Na época do lançamento da primeira edição do livro “O Iluminado” um prólogo inteiro foi cortado na sua revisão final. Isso foi feito para que fosse mantido um valor mais baixo no produto final, algo que não impactasse tanto assim no bolso dos leitores (um epílogo também foi excluído, porém seu conteúdo permanece desconhecido até hoje). Com o título “Before the Play” (algo como “Antes da Peça”, em tradução livre), o prólogo trazia detalhes sobre a construção do Overlook e sobre as diversas tragédias ocorridas ali no decorrer dos anos que antecederam a chegada da família Torrance ao lugar. Nele ficamos sabendo que o construtor do Overlook Hotel foi um homem chamado Bob T. Watson, membro de uma família que tinha feito uma imensa fortuna com prata, nos arredores de Placer, Colorado. Depois que perderam a fortuna, refizeram-na com especulações de terras com ferrovias e perderam-na novamente na depressão de 1893/94, quando o pai de Bob levou um tiro de um membro de uma quadrilha em Denver.

Bob T. reconstruiu a fortuna, sem ajuda, entre os anos de 1895 e 1905, foi quando começou a pensar em uma forma de coroar o seu esforço. Dois anos depois ele decidiu construir o maior e mais luxuoso resort hotel da América, um lugar de descanso para os ricos ao leste de Sidewinder, Colorado. Em 1907 as obras começaram. Dois anos depois (e após a perda de todos os cabelos e o bônus de uma ulcera) terminara a construção do Overlook, supervisionada pelo próprio Bob T. Antes mesmo da inauguração  ainda durante a construção do Hotel, acontece a primeira morte envolvendo o Overlook. Um dos dois filhos de Bob, Boyd Watson, cai de um cavalo ao saltar sobre uma pilha de madeira serrada (onde hoje é a topiaria) e quebra o pescoço. Seguido pela tragédia vieram os reversos financeiros e um dano de meio milhão de dólares provocado por um contador desonesto. Mesmo assim o persistente Bob T. levou adiante seu plano de e acabou abrindo as portas do Overlook no final da primavera de 1910. Nascia, dessa forma, o imponente Overlook Hotel, com seus 110 quartos, topiaria de animais de arbustos, playground, pista de críquete, campo de golfe, quadras de tênis, pátio de jogos, salão de jantar com vista para os picos dentados das Rockies, salão de bailes, amplo saguão para festas e uma majestosa escadaria ascendendo para o segundo andar, além da mobília neo-vitoriana casando perfeitamente bem com o suntuoso candelabro que enfeita o teto. Entretanto, a beleza imensurável do Overlook Hotel não foi suficiente para evitar a sequência de infortúnios que viriam.

Hotel Timberline, O Overlook de Kubrick

Hotel Timberline, O Overlook de Kubrick

Os Problemas do Overlook: Desde sua temporada de estréia o Overlook passou por problemas. O primeiro deles (desconsiderando a morte do futuro herdeiro dos Watsons) foi que quando ocorreu a inauguração, em 1º de Junho de 1910, as estradas que levavam até o hotel estavam quase intransponíveis. Nunca chovera tanto no Colorado como naquele ano. Apesar disso, no dia em que foi cortada a faixa pelas mãos do deputado de Bob T, o céu estava impecavelmente claro. Todos estranharam quando uma mulher da primeira fila desmaiou, assim que o deputado concluiu a cerimonia. Quando acordou, assustada, ela jurara que vira uma coisa “não humana” no saguão do hotel.

Outras histórias jamais chegaram a público. Um dos chefes de cozinha queimou seu braço enquanto preparava o almoço e teve que ser hospitalizado, A Sra. Arkinbauer, esposa do rei das embalagens de carne, escorreu depois do banho e quebrou seu pulso. Mas foi só no jantar daquela mesma noite que a segunda tragédia maior envolvendo o Overlook Hotel, aconteceu. O deputado de Bob T Watson engasgou-se com um pedaço de filé de lombo de vaca e morreu engasgado na frente de duzentos aterrorizados convidados.  As temporadas que se seguiram não foram, de forma alguma, mais animadoras, até que em 1915 Bob T. praticamente falido, finalmente desiste da ideia de administrar o Overlook Hotel e o vende para um homem chamado James Parris, com uma única condição; a de que ele e e seu filho restante tivessem empregos vitalícios como zeladores do hotel.

Parris, entretanto, teve tanta sorte na administração do hotel quanto Bob T. Bob não acreditava que entre os anos de 1915 e 1922 um ano sequer houvesse passado com a folha de contabilidade no azul. Como uma espécia de “ponto final” para Parris, o filho de Bob, Dick Watson, o encontrara em uma manhã, estendido duro ao lado de dois leões feitos de arbustos na topiaria do Overlook. Sua mulher o abandonara só dois anos antes, em 1920, devido a obsessão que o próprio Parris desenvolvera para com o Hotel.

Desde então o Overlook Hotel passara pela mão de diversos proprietários, entretanto o mais conhecido deles fora sem sombra de dúvidas um milionário excêntrico que injetara mais de um milhão (alguns dizem que a cifra passou da casa dos três milhões) chamado Horace Derwent. Apesar dos diversos esforços (que duraram exatas seis temporadas, de 1946 até 1952), Derwent não conseguiu, assim como seus antecessores, emplacar o Overlook e acabou vendendo-o, junto com seus outros empreendimentos no Colorado.

Em 1961 quatro escritores (dois deles ganhadores do Prêmio Pulitzer) alugaram o Overlook e o abriram como uma escola para escritores que durou um ano. Em uma noite, um dos alunos, completamente embriagado, saltou pela janela de um dos apartamentos do terceiro andar e caiu morto no terraço de cimento. Dois anos depois um grupo de Las Vegas, do qual especula-se que o antigo proprietário Horace Derwent faria parte, comprou o Overlook e o transformou em um clube privado para ricos e (mais uma vez os indícios são muito fortes) mafiosos. O clube se desfez com o trágico homicídio triplo em 1966, quando Vittorio Gienelli, um mafioso local conhecido como “O açougueiro” e dois dos seus amigos (ou capangas) foram mortos com tiros de espingarda calibre 12 a queima roupa.

stanleymineStanley Hotel, o Overlook da vida real: O Stanley Hotel é um luxuoso resort que foi construído entre 1906 e 1909 e fica a 5 km da estrada do Estes Park, no Colorado (EUA). King passou as férias de 1974 no Hotel, onde se inspirou para escrever a história de “O Iluminado”. O hotel oferece aos hospedes a oportunidade de um passeio inusitado por lugares supostamente mal assombrados (salões, suítes e túneis subterrâneos)  onde histórias sobre aparições de fantasmas no quarto 217 são narradas, além de luzes desligando e ligando sozinhas, vozes misteriosas e ruídos vindo de elevadores parados. Há histórias realmente macabras sobre o Stanley Hotel, como a de sua governanta, Elizabeth Wilson, que morreu vítima de uma explosão de gás. Após sua morte vários hospedes relataram terem visto o fantasma dela perambulando pelos corredores escuros do hotel.

Com uma decoração que mescla o moderno com requintes dos anos 20, o Stanley Hotel conta com dois restaurantes no térreo e todos os seus quartos (com exceção do 217) são padronizados. As acomodações do tipo tradicional (que são maioria) possuem preços de diárias mais em conta (R$285,00) enquanto os quartos não tradicionais (os supostamente mal assombrados 217, 401, 407, 428 e 1302) são um pouco mais caros, em média R$555,00 por noite.

Alguns anos atrás o programa “Ghost Hunters” do canal Sci Fi exibiu um especial sobre o Hotel Stanley, onde os protagonistas  visitam o lugar que inspirou King a escrever o livro e se deparam com estranhos fenômenos. Tudo não passa provavelmente de uma jogada de marketing, mas os vídeos são interessantes para conhecermos um pouco mais sobre o “Overlook da vida real”.

Uma última curiosidade antes de encerrar o post e passarmos para os vídeos: O hotel que aparece no filme “O Iluminado” do Kubrick não é o Stanley Hotel. Trata-se do Hotel Timberline e fica nas montanhas Hood, no Oregon. A locação foi usada somente para as tomadas externas, já que todos os cenários internos (com exceção dos longos e assustadores corredores) foram construídos especialmente para o filme. Em 1997 uma refilmagem foi feita (na verdade uma adaptação do livro para a tv em formato de minissérie) e dessa vez o Stanley Hotel serviu como locação.

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Ficou curioso sobre o passado do Overlook? Clique aqui e leia o prólogo “Before the play” traduzido.

Edilton Nunes

Edilton Nunes

Graduado em Letras pela UEG (Universidade Estadual de Goiás), viciado em literatura de terror/suspense, amante incondicional de séries e Hq´s e fã de carteirinha do mestre Steve há pelo menos 20 anos.

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2 Responses to “Personagem da semana: Overlook Hotel”

  1. Leon Nunes disse:

    Cara. Fantástico!
    Bela inspiração. Para King. Bela inspiração.

    abraços
    Leon Nunes

  2. Lana Francielle lanafsipe disse:

    Prefeito!! Fiquei emocionada quando vi o hotel!! Que vontade de ter $ e ir visitá-lo!!!

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