Traduzimos o trecho publicado de “11/22/63”

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11/22/63 é o novo livro de King. Como postamos anteriormente aqui, a editora Simon & Schuster divulgou uma pequena prévia dele na internet, para deixar os fãs com um pouco de água na boca. O portal www.stephenking.com.br traduziu o texto e disponibiliza na integra para os fãs brasileiros. A versão em capa dura tem 864 páginas e a previsão de lançamento é para 08 de novembro. Ainda sem previsão de publicação no Brasil.

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Na segunda feira, 25 de março, Lee veio andando até a rua Nelly carregando um pacote grande embrulhado em papel pardo. Espreitando através de uma pequena rachadura nas cortinas…Eu podia ver as palavras “registrado” e “Segurado” estampadas nela em grandes letras vermelhas. Na verdade, pela primeira vez eu pensei que ele parecia furtivo e nervoso, olhando em volta para o ambiente exterior ao invés de no mobiliario profundo e sinistro de sua mente. Eu sabia o que estava no pacote: um fuzil Carcano6,5 milímetros, também conhecido como um Mannlicher-Carcano completa com escopo, comprada na Esporte e Lazer Klein,em Chicago. Cincominutos depois ele subiu as escadas de fora para o segundo andar, a arma que Lee usou para mudar a historia estava em um armário sobre minha cabeça. Marina tirou as famosas fotos dele segurando-a direto do lado de fora da janela da minha sala seis dias depois, mas eu não o vi. Era um domingo e eu estavaem Jodie. Comoo décimo se aproximava, os fins de semana com Sadie tinham se tornado os mais importantes, os mais queridos, as coisas da minha vida.

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Eu acordei com um espasmo, ouvindo alguém murmurar “ainda não é tarde demais” sob sua respiração. Eu percebi que era eu e calei a boca. Sadie murmurou um abafado protesto e se virou na cama. O familiar chiado das molas me prendeu no espaço e tempo: o Bangalô Candlewood, 5 de Abril, 1963. Eu tateei meu relógio do criado mudo, e espiei os números luminosos. Passavam vinte e cinco minutos das duas da manhã, o que significava que na verdade era o sexto dia de Abril. Ainda não é tarde demais. Ainda não é tarde demais para o quê? Para recuar, para deixar tudo em paz? Ou pior ainda, chegar a esse ponto? A ideia de recuar era atraente, Deus sabia. Se eu fosse adiante e as coisas dessem erradas, esta poderia ser minha última noite com Sadie. Para sempre.

Mesmo que você tenha que matá-lo, você não tem que fazê-lo imediatamente.

Era verdade. Oswald iria se mudar para Nova Orleans por um tempo depois do atentado à vida do General––outro apartamento de merda, um que eu já havia visitado––mas não até daqui a duas semanas. Isso em daria muito tempo para parar seu relógio. Mas eu senti que seria um erro esperar demais. Eu posso encontrar razões pra continuar esperando. A melhor estava ao meu lado na cama: longa, adorável, e sedosamente nua. Talvez ela fosse apenas outra armadilha posta pelo tempo inflexível, mais isso não importava, porque eu a amava. E eu conseguia visualizar o cenário––muito claramente––para onde eu teria de correr depois de matar Oswald. Correr para onde? De volta para o Maine, é claro. Esperando que eu pudesse ficar a frente dos tiras por tempo o bastante para chegar no buraco do coelho e escapar para um futuro onde Sadie Dunhill teria… bem… por volta dos oitenta anos. Isso se ela estivesse viva. Dado ao seu hábito de fumar, isso seria muito difícil.

Eu me levantei e fui até a janela. Apenas alguns bangalôs estavam ocupados nesta semana no começo da primavera. Havia uma picape manchada de estrume ou lama, com uma carroça cheia do que pareciam implementos de fazenda na parte de trás. Uma motocicleta Indian com um sidecar. Uma dupla de peruas. E um Plymouth Fury de dois tons. A lua deslizava para frente e para trás das nuvens e não era possível identificar a cor da metade inferior do carro pela aquela luz gaguejante, mas eu tinha muita certeza de que sabia qual era, de qualquer forma.

Eu vesti as calças, a camiseta, e os sapatos. Então eu sai da cabine e caminhei através do pátio. O ar frio mordeu minha pele aquecida da cama, mas eu mal senti. Sim, o carro era um Fury, e sim, era branco sobre o vermelho, mas este aqui não era do Maine ou Arkansas; a placa era de Oklahoma, e o decalque na janela traseira dizia VÃO, RAPIDINHAS. Eu dei uma espiada e vi um monte espalhado de livros. Algum estudante, talvez indo para o sul visitar os pais nas férias de primavera. Ou um casal de professores tarados tirando vantagem da política liberal para convidados de Candlewood.

Só mais uma melodia desafinada enquanto o passado se harmonizava consigo mesmo. Eu toquei o porta malas, como fizeraem Lisbon Falls, então retornei ao bangalô. Sadie havia afastado o lençol para sua cintura, e quando eu entrei, a corrente de ar frio a acordou. Ela sentou, segurando o lençol sobre seus seios, então deixou-o cair quando viu que era eu.

–– Não consegue dormir, querido?

–– Eu tive um pesadelo e sai para tomar um ar.

–– Que foi?

Eu desabotoei meu jeans, chutei meus sapatos.

–– Não consigo me lembrar.

–– Tente. Minha mãe sempre costumava dizer que se contar seus sonhos, eles não viram realidade.

Eu subi na cama usando nada, exceto minha camiseta.

–– Minha mãe sempre costumava dizer que se você beijar seu amor, ele não vai se tornar realidade.

–– Ela realmente disse isso?

–– Não.

–– Bem. –– ela disse pensativamente. –– Soa possível. Vamos tentar.

Nós tentamos.

Uma coisa levou à outra.

10

Depois, ela acendeu um cigarro. Eu fiquei deitado vendo a fumaça subir e ficar azul na ocasional luz da lua entrando pelas cortinas meio-abertas. Eu nunca teria deixado as cortinas assim na Nelly Street, eu pensei. Na Nelly Street, em minha outra vida, eu estou sempre só, mas ainda sou cuidadoso para fechá-las completamente. Exceto quando eu estou espiando, é claro. Espreitando.

Naquela época eu ao gostava muito de mim mesmo.

–– George?

Eu suspirei.

–– Esse não é meu nome.

–– Eu sei.

Eu olhei para ela. Ela inspirou profundamente, aproveitando seu cigarro sem culpa, como as pessoas fazem na Terra do Passado.

–– Eu não tenho nenhuma informação, se é o que está pensando. Mas faz sentido. O resto de seu passado foi inventado, afinal de contas. E estou feliz. Eu não gosto muito de George. É meio que… qual é a palavra que você usa às vezes? …meio que banana.

–– O que acha de Jake?

–– Como em Jacob?

–– Sim.

–– Eu gosto. –– ela se virou para mim. –– Na Bíblia, Jacob lutou com um anjo. Você está lutando também. Não está?

–– Suponho que estou, mas não sou um anjo. –– embora Lee Oswald tampouco parecesse muito com um diabo. Eu gostava mais de George de Mohrenschildt no papel de diabo. Na Bíblia, Satã é um tentador que faz ofertas, e então sai do caminho. Eu esperava que Mohrenschildt fosse assim.

Sadie arrebitou seu cigarro. Sua voz estava calma, mas seus olhos estavam escuros.

–– Você vai se machucar?

–– Eu não sei.

–– Você vai embora? Porque se tiver que ir, eu não sei se posso agüentar. Eu teria morrido antes de dizer isso quando eu estava lá, mas Reno foi um pesadelo. Te perder de vez… –– ela balançou a cabeça lentamente. –– Não, não tenho certeza de que poderia agüentar.

–– Eu quero casar com você. –– eu disse.

–– Meu Deus. –– ela disse suavemente. –– Bem quando eu estava pronta para dizer que isso nunca aconteceria, Jake-pseudônimo-George fala no ato.

–– Não agora, mas se a semana que vem correr do jeito que espero que corra… você gostaria?

–– É claro. Mas eu tenho que fazer uma pequena pergunta.

–– Se sou solteiro? Legalmente solteiro? É isso que você quer saber?

Ela assentiu.

–– Sou. –– eu disse.

Ela deixou sair um suspiro cômico e sorriu como uma criança. Então ela se acalmou.

–– Posso ajudá-lo? Deixe-me ajudá-lo.

O pensamento me gelou, e ela deve ter visto. Seu lábio inferior tremeu Então ela o mordeu com os dentes.

–– Tão ruim assim, então. –– ela disse pensativamente.

–– Vamos colocar deste modo: eu atualmente estou perto de uma grande máquina cheia de dentes afiados, funcionando a toda velocidade. Eu não permitirei que você fique próxima de mim enquanto eu estiver mexendo nela.

–– Quando será? –– ela perguntou. –– Seu… não sei… seu encontro com o destino?

–– Ainda está para ser determinado. –– eu tinha uma sensação que eu já havia falado demais, mas já que tinha chegado até aqui, decidi ir um pouco mais longe. –– Alguma coisa vai acontecer nesta noite de Quarta-Feira. Algo que eu tenho que testemunhar. Então eu decidirei.

–– Não há como eu ajudá-lo?

–– Acho que não, querida.

–– Se acontecer de eu poder––

–– Obrigado. –– eu disse. –– Eu agradeço. E você vai mesmo se casar comigo?

–– Agora que eu sei que seu nome é Jake? Claro.

Traduzido por: Boni J. e Edilton Nunes

Edilton Nunes

Edilton Nunes

Graduado em Letras pela UEG (Universidade Estadual de Goiás), viciado em literatura de terror/suspense, amante incondicional de séries e Hq´s e fã de carteirinha do mestre Steve há pelo menos 20 anos.

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4 Responses to “Traduzimos o trecho publicado de “11/22/63””

  1. […] novembro. Para divulgar a nova obra, a editora lançou um trecho do livro, que pode ser conferido aqui (em […]

  2. @cyberlivingdead disse:

    Estou deveras curioso sobre esse romance! Fico pensando o que aconteceu no futuro de Jake para que voltar no tempo para impedir o assassinato de J.K. fosse tão necessário!

  3. Parmelia disse:

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