Prólogo traduzido do novo livro 11/22/63

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O novo livro de Stephen King – 11/22/63 (“Novembro de 63” no Brasil) –  conta a história de Jake Epping, um professor que volta ao passado para impedir o assassinato do então atual presidente americano John F. Kennedy, é lançado hoje nos países de língua inglesa. Para celebrar esse lançamento, eis aqui a tradução exclusiva para o português do prólogo do livro.  Boa leitura!

Eu nunca fui o que você chamaria de um chorão.

Minha ex-mulher dizia que a minha “gradiente emocional não existente” fora a principal razão de ela estar me deixando (como se o cara que ela conheceu nas reuniões do AA fosse irrelevante). Christy disse que ela provavelmente poderia me desculpar por não ter chorado no funeral de seu pai; eu sou o conhecera por seis anos e não poderia entender o homem magnífico e generoso que ele fora (um Mustang convertível como um presente de graduação do ensino médio, por exemplo). Contudo, quando eu não chorei no funeral dos meus próprios pais – eles morreram com dois anos de diferença, Pai de câncer no estômago e Mãe de um ataque cardíaco trovoado, enquanto andava na praia da Flórida – ela começou a entender aquela coisa gradiente não existente. Eu “era incapaz de sentir os meus sentimentos”, na fala dos AA.

“Eu nunca vi você derramar lágrimas,” ela disse, falando no tom monótono que as pessoas usam para expressar o final absoluto em uma relação. “Até mesmo quando você me disse que eu precisava ir para a reabilitação ou que você estava indo embora.” Essa conversa aconteceu cerca de seis semanas antes de ela empacotar suas coisas, dirigir para o outro lado da cidade, e ir morar com Mel Thompson. “Garoto conhece garota na reunião do AA” – esse é outro ditado que eles usam nessas reuniões.

Eu não chorei quando a vi ir embora. Eu também não chorei quando voltei para dentro da pequena casa com uma hipoteca ainda maior. A casa onde nenhum bebê tinha aparecido, e agora nem iria. Eu simplesmente deitei na cama, agora pertencendo somente a mim, e coloquei os braços sobre os meus olhos, e me lamentei.

Sem lágrimas.

No entanto, eu não sou emocionalmente bloqueado. Christy estava errada quanto a isso. Um dia, quando eu tinha nove anos de idade, minha mãe me encontrou na porta, assim que eu voltei da escola. Ela disse que meu collie, Rags, fora atropelado e morto por um caminhão, o qual nem sequer se importou em parar. Eu não chorei quando eu o enterrei, embora meu pai dissesse que ninguém esperaria menos de mim, caso eu chorasse, porém eu chorei quando ela me disse. Parcialmente por ser minha primeira experiência com a morte; principalmente por ser minha responsabilidade ter certeza de que ele estava seguramente encoleirado em nosso quintal.

E eu chorei quando o médico da Mãe me ligou e me contou o que acontecera naquele dia na praia. “Sinto muito, mas não havia chances,” ele disse. “Às vezes, é muito repentino, e os médicos tendem a ver isso como uma benção.”

Christy não estava lá – ela tivera de ficar até mais tarde na escola, naquele dia, e se encontrara com uma mãe, a qual tinha questões sobre o último boletim de seu filho – mas eu chorei, tudo bem. Eu fui até a nossa pequena lavanderia e tirei um lençol sujo de dentro do cesto e chorei nele. Não por muito tempo, porém as lágrimas vieram. Eu poderia ter dito-lhe sobre elas mais tarde, mas eu não vi o porquê, parcialmente pelo fato de ela pensar que eu estaria pescando por compaixão (esse não é um termo do AA, mas talvez pudesse ser), e parcialmente porque eu não acho que a habilidade de explodir em berros no momento certo seja um requerimento para um casamento próspero.

Eu nunca vi meu pai sequer chorar, agora que penso sobre isso; nos seus momentos mais emocionais, ela poderia suspirar profundamente ou grunhir algumas risadas relutantes – nada de peito batendo ou crise de risadas para o William Epping. Ele era do tipo silencioso forte, e na maioria das vezes, minha mãe era igual. Então talvez a coisa de não-chorar-muito-fácil fosse genético. Mas bloqueado? Incapaz de sentir meus sentimentos? Não, eu nunca fora essas coisas.

Além de quando eu recebi a notícia sobre minha Mãe, eu consigo me lembrar de outra vez em que chorei enquanto adulto, e isso fora quando eu li a história do pai do zelador. Eu estava sentado sozinho na sala dos professores da escola Lisbon High, trabalhando com uma pilha de temas, as quais a minha classe adulta de Inglês escrevera. No final do corredor eu podia ouvir a batida de bolas de basquete, o clamor do apito de fim de jogo, e os gritos da multidão, enquanto as feras do esporte lutavam: Lisbon Greyhounds versus Jay Tigers.

Quem pode saber quando a vida está pendurada na balança, e por quê?

O tema que eu pedi fora “O Dia que Mudou Minha Vida.” Grande parte das respostas eram sinceras, mas horríveis: contos sentimentais sobre uma bondosa tia que acolhera uma grávida adolescente, um colega de exército, o qual demostrara o verdadeiro significado de bravura, uma chance de conhecer uma celebridade (o apresentador de “Jeopardy” Alex Trebek, eu acho que era, mas talvez fora o Karl Malden). Os professores  entre vocês, os quais pegavam uns três ou quatro mil extras dando aulas para adultos para seu Diploma de Equivalência do Ensino Médio saberão o que deprimente pode ser o trabalho de ler tais temas. O processo de dar notas dificilmente é demonstrado nisso, ou pelo menos para mim; eu passava todo mundo, uma vez que eu nunca tivera um aluno adulto, o qual não dava o melhor de si. Se você entregasse um papel com algo escrito nele, você garantiria uma nota de Jake Epping, do Departamento de Inglês da LHS, e se a redação fosse organizada em parágrafos de verdade, você teria pelo menos um B-menos.

O que deixava o trabalho difícil era a caneta vermelha que se tornara minha ferramenta de ensino primária, ao invés de minha boca, e eu a praticamente a consumia. O que deixava o trabalho deprimente era que, você sabia, muito pouco daquele ensino em caneta vermelha seria absorvido; se você alcançar a idade de vinte e cinto ou trinta sem saber como escrever (simplesmente, e não simplismente), ou escrever em maiúsculas nos lugares devidos (Casa Branca, não casa-branca), ou escrever uma sentença contendo um substantivo e um verbo, você provavelmente nunca saberá. Mesmo assim, nós continuamos com o trabalho, mesmo que desagradável, bravamente circulado as palavras mal empregadas em sentenças como Meu marido foi muito veloz para me julgar ou cortando tinha nadado e substituindo por nadei na sentença Eu nadei no lago frequentemente depois disso.

Eu um trabalho tão desesperançado e árduo que eu fazia naquela noite, enquanto não muito distante outro jogo de basquete do colégio terminava com outro apito afinal, mundo sem fim, amém. Não foi muito tempo depois de Christy sair da reabilitação, e eu acho que se eu estivesse pensando em algo, era em desejar que eu voltaria para casa e a encontraria sóbria (a qual eu encontrei; ela se segurou em sua sobriedade melhor do que ela se segurou em seu marido). Eu lembro que tive uma pequena dor de cabeça e estava massageando as minhas têmporas, do modo que você faz quando tenta manter uma dorzinha irritante de se transformar em uma grande batida. Eu lembro ter pensado, Mais três desses, só três, e eu posso ir embora daqui. Eu posso ir para casa, fazer uma grande caneca de chocolate instantâneo para mim, e mergulhar na nova novela de John Irving, sem essas sinceras, mas mal idealizadas coisas, fiquem em minha cabeça.

Não houve violinos ou sinos de aviso quando eu puxei a redação do zelador do topo da pilha e a coloquei na minha frente, sem sentir que a minha vidinha estava prestes a mudar. Mas nós nunca sabemos, não é? A vida muda rapidamente.

Ele escrevera com uma caneta esferográfica barata, a qual borrara as cinco páginas em diversos lugares. Sua escrita era meio laçada, mas um rabisco legível, e ele deveria estar calcando muito, pois as palavras estavam, na verdade, talhadas nas páginas baratas do caderno; se eu fechasse meus olhos e corresse com meus dedos na parte de trás dessas folhas usadas, seria como ler braile. Havia um pequeno rabisco, como um floreio, no final de cada y escrito em letra minúscula. Eu me lembro disso com uma clareza particular.

Eu também me lembro de como sua redação começava. Eu me lembro palavra por palavra.

Não foi um dia, mas foi uma noite. A noite que mudou a minha vida era a noite que meu pai asasinou minha mãe e meus dois irmãos e me machucou bastante. Ele machucou a minha irmã também, tanto que ela acabou ficando em comma. Em três anos ela morreu sem acordar. Seu nome era Ellen e eu a amava muito. Ela adorava pegar frores e colocar em vazos.

No final da metade da primeira página, meus olhos começaram a arder e eu coloquei a minha confiável caneta vermelha de lado. Foi quando eu chequei na parte em que ele se rastejava para baixo da cama com sangue correndo pelos seus olhos (também escorreu pela minha garganta e tinha um gosto horível) que eu comecei a chorar – Christy teria ficado tão orgulhosa. Eu li até o final sem fazer qualquer anotação, limpando os meus olhos para as lágrimas não caírem nas folhas, as quais obviamente foram feitos com muito esforço por ele. Eu tinha pensado que ele era mais devagar que os outros, talvez somente um meio degrau acima do que era chamado de “retardado educável”? Bem, por Deus, existia uma razão para isso, não existia? E uma razão para a deficiência também. Era um milagre ele sequer estar vivo. Mas ele estava. Um homem bondoso, quem sempre tinha um sorriso e nunca levantava sua voz com as crianças. Um homem bondoso, quem estivera no inferno e estava trabalhando – modesta e esperançosamente, assim como a maioria deles faz – para conseguir um diploma do ensino médio. Embora ele seria um zelador pelo resto de sua vida, simplesmente um caro em calças verdes ou marrons, ou empurrando uma vassoura ou raspando chiclete do chão com uma faca, a qual ele sempre carregava no seu bolso traseiro. Talvez uma vez ele pudesse ter sido algo diferente, porém uma noite sua vida mudou bruscamente, e agora ele era simplesmente um cara em Carhartts, o qual as crianças chamavam de Harry O Sapo Pulador, por causa do jeito que ele andava.

Então eu chorei. Essas foram lágrimas de verdade, do tipo que vem bem do fundo. No final do corredor, eu podia ouvir a banda do Lisbon tocar sua música da vitória – então o time de casa ganhara, e bom para eles. Mais tarde, talvez, Harry e um par de seus colegas iriam jogar os alvejantes e limpar a porcaria derrubada embaixo deles.

Eu rabisque um grande A vermelho no topo do papel. Olhei para ele por um momento ou dois, e então adicionei um grande + vermelho. Pelo fator de ser bom, e porque a sua dor evocou uma reação emocional dentro de mim, seu leitor. E isso não é o que redações A+ teriam de fazer? Evocar uma resposta?

Quanto a mim, eu só desejei que a ex Christy Epping estivesse correta. Eu desejei ter estado emocionalmente bloqueado, no fim das contas. Porque tudo o que se seguiu – cada coisa terrível – fluiu a partir dessas lágrimas.

Luis

Fã de King desde 2002, leitor compulsivo e colecionador.

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5 Responses to “Prólogo traduzido do novo livro 11/22/63”

  1. @cyberlivingdead disse:

    Poxa, essa parte já me deixou ainda mais querendo lê-lo!

  2. […] Leia mais: Prólogo do novo livro 11/22/63 | StephenKing.com.br […]

  3. Calil disse:

    Estou louco para lê-lo. Espero que venha logo para uma edição traduzida em português, apesar de que acho que vai demorar a versão nacional dele.

    Se o “Under the Dome” não foi traduzido ainda, imagina o “11/22/63”?

  4. Victor Ramos disse:

    Um homem separado de sua mulher: eu já vi isso em uma recente obra do King (Duma Key). Espero que realmente ele não se perca nesse novo romance dele.

  5. […] “Sob a Redoma” será 11/22/63 (quem quiser pode acompanhar o prólogo já traduzido aqui e a nossa resenha oficial aqui).  O livro que narra a história de um homem que volta no tempo […]

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